terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Dona Izabel, a última benzedeira do Condor


Dona Izabel, a última benzedeira do Condor

Mãe de santo, Izabel veio de São Miguel do Guamá para seguir
sua vocação e fundar em Belém o terreiro de mina de
São Jorge (Foto: Thiago Araújo)
No município de São Miguel do Guamá, numa pequena localidade chamada Tatuaiá, a parteira e rezadeira Domingas anunciou assim que retirou Izabel Araújo de dentro da mãe: o destino da menina seria trabalhar como benzedeira e mãe de santo para ajudar os outros. Seu Manuel, o pai do bebê, disse à dona Domingas: “Aaah... tu já vem com as tuas doidices?”. 71 anos depois, quem conta a história é a própria Izabel, hoje mais conhecida como mãe Izabel. Moradora com orgulho do bairro da Condor, em Belém, ela já atendeu incontáveis pessoas, salvou vários doentes desenganados, benzeu cachorro, papagaio e tem clientes até na França e na Alemanha.

Quem visita mãe Izabel procura sua bênção ou a cura para quebranto, perturbação, mau olhado, vento caído, doidice, encosto, desemprego... Como ela mesma diz, “vem várias misturas”. Mãe Izabel aprendeu tudo que sabe sozinha. No entanto, sábia, faz uma ressalva: “A gente vive aprendendo. Aprende todo dia. A última aprendição é morrer”.

A benzedeira, que consegue diferenciar os males do corpo das enfermidades da alma, revela: há profissionais formados em medicina adeptos da umbanda, mas não podem falar qual o real problema dos pacientes. “É como minha médica disse pra mim: ‘A gente vê que o doente não tá precisando daquele tratamento, mas não pode dizer. A gente interte, interte e manda pra casa. Não vai encher a pessoa de remédio, a pessoa não tá doente’”, conta a benzedeira. 

Apesar das dificuldades financeiras, mãe Izabel não recusa quem chega “aperriado” buscando ajuda e não tem como pagar. Certa vez, uma mãe de santo disse que dona Izabel só não enrica porque abre a casa para prostituta e pobre. “Se vêm à minha porta é porque estão precisando de mim. Agora me diz se eu vou atender uma mulher que chega com uma bolsona e vou barrar um que chega com chinelinho? Claro que não! Ele é gente como eu”, comenta indignada. A senhora de olhos pequenos e voz firme tem boa memória e cultiva carinho por todos que chegam até ela.

Zeladora da casa da cabocla Mariana, entidade guia que incorpora, dona Izabel só não abre mão de cobrar os R$ 25 das cartas de tarô. Diz que é necessário para o baralho não ficar mentiroso. “É uma ciência muito grande. Tu não vai pegar baralho e dizer uma bobagem pra os outros. Se não daqui a pouco a pessoa vai dizer: ‘êêêêê, não sabe nada...”, justifica. 

MISSÃO

A poucos metros do terreiro de mina São Jorge, santo da casa da cabocla Mariana, há uma igreja evangélica. Chegaram muito depois de mãe Izabel ao bairro e uma pessoa quis encrencar jogando sal ungido em sua calçada. Moradora antiga e trabalhando há 47 anos, ela recebeu o apoio da grande maioria dos vizinhos - que a respeitam e lhe têm carinho. 

O terreiro é licenciado e pode funcionar até tarde. Porém, mãe Izabel só toca tambor em dia de festa e fecha cedo para não atrapalhar o sono dos outros. Lá só se trabalha com a chamada linha branca, que lida com boas energias. Ela reconhece que ainda há muito preconceito, mas afirma que agora é bem menos discriminada. “Tem gente que diz que, quando eu morrer, eu vou pra o inferno. Não quero saber do que vai acontecer comigo. Quero saber do bem que eu tô fazendo agora”, desabafa.

Tornar-se mãe de santo não foi uma opção. Aos 23 anos, depois de uma crise que teria sido provocada por um encosto que a atormentava há tempos, dona Izabel finalmente descobriu que era médium. Ela afirma que teria morrido se não tivesse recebido orientações da mãe de santo Juraci, uma espécie de professora espiritual. “Tem que saber segurar. Se tu não segurar, tu leva o destempero”, alerta.

A infância de mãe Izabel foi bem diferente daquela vivida pelas crianças do colégio estadual em que trabalhou até se aposentar, em 92. Seu dom se manifestou muito cedo. Ela ia para o roçado e tinha constantes passamentos e desmaios. Quando chegava cansada em casa, ainda precisava lidar com a fila de vizinhos que procuravam a menina para “puxar as juntas”, uma espécie de massagem espiritual. “Quando eu vim para Belém, eu pensei: Graças a Deus, aqui ninguém sabe [do meu dom]. Ninguém vai me procurar. Não dizia pra ninguém. Olha onde que eu vim me parar: pulei dum, caí no outro”, sorri. 

SANTOS E ORIXÁS

Hoje, mãe Izabel aprendeu a ter amor pela sua vocação e afirma que é isso que lhe faz feliz. Viúva, mãe de dois filhos de ventre, três de criação, quatro netos e uma bisneta, foi surpreendida pela cardiologista às vésperas do aniversário de setenta anos. A médica aconselhava que ela tomasse remédios para cuidar da “pressão emocional” que teria na grande festa em sua homenagem, ocorrida em setembro do ano passado. “Falei para ela: ‘Doutora, não ganhei dinheiro, não ganhei carro, como é que eu vou ter uma pressão emocional?’ ”, conta rindo mãe Izabel.

Nascida em família católica, uma das últimas benzedeiras de Belém frequenta a igreja até hoje. O que importa para mãe Izabel é o bem: de onde ele vem é o de menos. “Tudo é iluminado por Deus. Nada se move sem o consentimento dele”, ensina. A única coisa que a benzedeira deseja é pagar um empréstimo antes de morrer. Não quer deixar a filha endividada. Para afugentar a morte, a família de mãe Izabel já está planejando a aquisição de novas dívidas. 

Logo na entrada da casa que dá acesso ao terreiro da benzedeira, grandes estátuas representando entidades da umbanda dividem espaço com um cartaz de Nossa Senhora de Nazaré, uma imagem de Cristo, santos num altar, orixás e uma pequena Nossa Senhora das Graças recém-chegada. Todos convivem muito bem. Nunca brigaram.

(Diário do Pará)

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