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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Índios defendem cultura popular, desenvolvimento sustentável e visão integrada da realidade

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A sabedoria dos “povos da floresta” compartilhada com cerca de cem participantes do módulo 

(Foto: Caique Cahon)
Em seu novo livro “O Futuro Chegou”, o sociólogo italiano Domenico de Masi defende que o Brasil oferece o melhor modelo para o futuro da sociedade. Duas entre inúmeras razões são a formação populacional mestiça e a sabedoria indígena, à qual, segundo o pesquisador, o Brasil deveria “boa parte de sua esfera inconsciente e emotiva”, adequada ao contexto natural. A sabedoria desses “povos da floresta” pôde ser constatada, na manhã desta quarta-feira, 13, quando três lideranças indígenas deram aula a mais de cem participantes do módulo “Cultura Indígena na brisa da cura” do curso de extensão e disciplina “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais”.
(Foto: Caíque Cahon)
Benki Ashaninka, reconhecido internacionalmente pela aplicação do modelo e desenvolvimento sustentável em comunidade no Acre, na fronteira entre o Peru e o Brasil(Foto: Caíque Cahon)
Os índios Ailton Krenak, Álvaro Tukano e Benki Ashaninka revezaram-se na roda formada por estudantes de graduação, pós-graduação e comunidade externa para apresentarem a trajetória de vida de cada um e a luta em defesa das causas indígenas, que, para eles, também devem ser de toda a população. No Jardim Botânico da UFJF, na Mata do Krambeck, o trio entoou cânticos, orações e levou tinta natural de urucum para compor a palestra em meio a revoadas de maritacas.
Reconhecido internacionalmente pela aplicação do modelo de desenvolvimento sustentável na comunidade Ashaninka, no Acre, na fronteira entre Peru e Brasil, o líder Benki defendeu a indissociabilidade entre seres humanos e natureza como condição fundamental para o funcionamento harmônico do planeta. O indígena relatou ainda os esforços realizados para demarcar o território de seu povo, reflorestar mais de 21 mil hectares da área, realizar o manejo da flora e fauna e combater narcotraficantes e madeireiros.“Fomos ensinados por nossos avós a fazer o replantio de árvores se precisarmos tirar uma delas para montar uma casa ou canoa. Isso é para mantermos a existência da floresta para as próximas gerações diferentemente do que vimos acontecer por aí”, disse.  
A partir de trabalhos com adolescentes, Benki fundou o Centro de Formação Aiyoreka Ãntame, no município acreano de Marechal Thaumaturgo, para difundir a filosofia indígena, valorizar a cultura local e desenvolver práticas sustentáveis. “Era para ter livros sobre a história dos povos indígenas. O que é preciso é respeitá-los, unir as energias de cada um com a sociedade e descobrir momentos oportunos. A ciência não está só na academia”, destacou.
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Álvaro Tukano é uma das principais vozes críticas do país em relação aos embargos em demarcações de terras indígenas (Foto: Caíque Cahon)
Nascido em Minas Gerais, o ambientalista e ex-deputado federal eleito para a Assembleia Constituinte, em 1986, Ailton Krenak elogiou a oferta da disciplina na UFJF. “Nossas universidades devem ser uma importante porta de entrada para o conhecimento não sistematizado, que está nas nossas memórias, nas nossas tradições. As instituições devem ter algumas frestas para poder botar oxigênio, saúde [na produção do saber] assim como essas árvores deixam a luz passar por entre elas”. O indígena criticou a prevalência da “matriz de pensamento europeu, branco, racional, sistemático” no ensino e na pesquisa e a exclusão do conhecimento tradicional ao longo dos séculos. “Somos [os índios] da tribo das pessoas que vivem o que falam”, afirmou, recomendando ainda que o cidadão deveria se esforçar para ter uma visão integrada da realidade, não apenas restrita ao cotidiano local e imediato, sob o risco de não compreender as consequências de crimes ambientais e sociais, mesmo que localizados em terras distantes.
Representante do povo Tukano, situado no município de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, Álvaro Sampaio Tukano é uma das principais vozes críticas em relação aos embargos em demarcações de terras indígenas, à Fundação Nacional do Índio (Funai) e às políticas públicas destinadas a esses povos. No encontro no Jardim Botânico, o ambientalista focou no relato sobre  as dificuldades enfrentadas junto a parlamentares para estabelecer limites aos territórios indígenas e defendeu o trabalho educacionais para essa população.
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Ailton Krenak elogiou a oferta da disciplina na UFJF, abrindo caminho para o conhecimento não sistematizado (Foto: Caíque Cahon)
As aulas dos três líderes ambientalistas, iniciadas na última segunda-feira, 11, e que se estendem até a próxima sexta-feira, 15, não interessou apenas a moradores de Juiz de Fora. A professora de Artes, no Ensino Básico, Marta Prata Soares veio de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, apenas para ouvi-los. A docente mantém interesse na cultura indígena, repassada para seus alunos em sala de aula, e fez curso a distância de Aperfeiçoamento em História e Cultura dos Povos Indígenas, oferecido pelo Centro de Educação a Distância da UFJF. “Mostro os grafismos de cada etnia para os alunos, falo sobre a pintura de urucum. Nesses encontros, a principal mensagem que fica é a de preservação”, disse.
Com a última aula na sexta-feira, a primeira edição do curso e disciplina “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais” chega ao fim. A iniciativa foi dividida em três módulos semanais consecutivos, o primeiro abordou o tema agroecologia, o segundo apresentou o conhecimento quilombola, e o atual discute questões indígenas. Segundo o coordenador do curso, professor Daniel Pimenta, a disciplina optativa oferece quatro créditos para alunos de graduação, três para os do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFJF e certificado a participantes externos. Nova oferta do curso, no próximo semestre, dependerá de financiamento do Governo Federal. Se considerada a afirmação de Domenico de Masi, de que “a história dos brasileiros é longuíssima, que funda suas raízes nas míticas civilizações tupi e tapuia, e que exatamente desas raízes provém a sua melhor parte”, há ainda motivos sobre o que ensinar.

Fonte: UFJF

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Disciplina discute cultura quilombola em mata do Jardim Botânico da UFJF


Em uma clareira do Jardim Botânico da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), dezenas de pessoas circulavam mestre Tiana, ansiosos por conhecer um pouco mais sobre a cultura quilombola, seus ritos e práticas. O encontro, ocorrido na manhã desta quarta-feira, dia 6, faz parte do segundo módulo do curso de inverno “Artes e ofícios dos saberes tradicionais”, que tem como objetivo estabelecer um diálogo entre os saberes de matrizes afrodescendentes, indígenas e de práticas agrícolas conservacionistas e a produção do conhecimento acadêmico em diversas áreas. Além de ser um projeto de extensão, o curso equivale também a disciplina de graduação e de pós-graduação.
Com o tema “Cultura quilombola, resistência em festa”, o módulo, que segue até sexta-feira, dia 8, aborda conhecimentos ligados a noções de corpo, saúde, cura e doença, natureza, cultura e história a partir das experiências quilombolas. Em meio a tambores, fogueira e cânticos, Sebastiana Geralda Ribeiro da Silva, presidente da Associação Quilombo Carrapato da Tabatinga, situada em Bom Despacho (MG), compartilhou um pouco do que aprendeu ao longo de seus 82 anos, 67 deles atuando como “mestre”, ofício que herdou do avô, aos 15 anos.

Mestre Tiana falou de dança, arte, desenhos, culinária, vestuário, sempre com muita humildade. “Não sou professora e não vim aqui para ensinar nada, apenas para passar esperança a todos.” Ela também destacou a importância do intercâmbio de saberes entre membros da academia e integrantes da cultura quilombola do país. “Acho impressionante que hoje as pessoas estão parando para nos ouvir. Sempre fomos considerados uma cultura ‘inferior’ e hoje as pessoas estão dando mais valor a essa diversidade. Se fôssemos ouvidos desde o início, certamente seríamos um país mais preservado.”
De acordo com Carolina dos Santos Bezerra-Perez, professora do Colégio de Aplicação João XXIII e uma das responsáveis pela organização do módulo, juntamente com o professor Leonardo Carneiro (Geografia), o principal objetivo foi trazer mestres da cultura afrobrasileira para disponibilizar saberes que muitas vezes não aprendidos na academia. Ainda segundo ela, um importante passo foi dado com a sanção da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afrobrasileira e africana em todas as escolas, do ensino fundamental ao ensino médio. “É preciso desconstruir os preconceitos relativos à cultura negra e conhecer os valores civilizatórios desses grupos. Precisamos formar profissionais com outra sensibilidade.”
A roda também contou com a presença de Paulo Rogério da Silva, de Miracema (RJ) e Jeferson Alves de Oliveira, do grupo de Quilombolas do Tamandaré-Guaratinguetá (SP), que apresentaram um pouco do jongo, dança de origem africana dançada ao som de tambores como o caxambu.

Sobre o curso
Segundo o professor e coordenador do “Artes e ofícios dos saberes tradicionais”, Daniel Pimenta, 80 pessoas participam do curso de inverno, sendo 50 deles de variadas áreas da graduação, cinco da pós-graduação e 25 alunos de fora da UFJF. “Conseguimos alcançar nosso objetivo que era promover um debate interdisciplinar sobre essa cultura popular que muitas vezes não é ensinada nas universidades.” A previsão é de que um novo curso seja criado no próximo semestre, desde que haja demanda. Para este, não há mais possibilidade de participação, já que as inscrições estão encerradas.
O curso termina na próxima semana (11 e 15 de agosto), com o módulo “Cultura indígena na brisa da cura”, que contará com a presença dos mestres indígenas Ailton Krenak e Álvaro Tukano. Neste módulo, os estudantes terão acesso a vários aspectos das culturas de variadas etnias indígenas, abordando suas diversidades filosóficas, religiosas, artísticas e medicinais. Em uma nova roda de conversa, será discutida a preservação dos valores ancestrais e pré-colombianos, que permanecem vivos através da oralidade, e a luta pela resistência espiritual à pressão da atual civilização. Está previsto um novo encontro no Jardim Botânico, em data a ser definida.
O curso foi incluído primeiramente na grade da Universidade de Brasília (UnB), disponibilizado por iniciativa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), que faz parte do programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Diante dos dos resultados positivos obtidos, o Ministério da Cultura, juntamente com Ministério de Ciência e Tecnologia, disponibilizou uma linha de financiamento para que outras cinco universidades pudessem levar essa experiência a seus alunos e a UFJF foi uma das contempladas.
Fonte: Site UFJF
Fotos: Géssica Leine

quinta-feira, 27 de março de 2014

Reza, remédio e simpatia - artigo de frei Francisco van der Poel (Frei Chico)


Na medicina popular, a cura acontece através de um ritual. A benzedeira, o raizeiro, o ogã das plantas (cultos afro) e o pajé (culturas indígenas) procuram curar a pessoa como um todo e não curar só o corpo de um doente. Neste processo, vida e religião se mostram inseparáveis.

Os curadores mencionados sabem perfeitamente que o tripé de remédios, rezas e simpatias reúne elementos distintos que, sem contradição entre si, combatem a doença e suas causas, segundo as culturas representadas.

Semelhante ao tripé da cura, o povo usa (1) arma, (2) simpatia e (3)reza para defender-se dos inimigos. O agricultor usa (1) a técnica (boa semente, época certa, cova da fundura certa), (2) lança mão de simpatias e (3) pede as bênçãos de Deus e bom tempo. Quem quer casar, (1) tem amor, (2) planta a faca na bananeira e (3) rezam a Santo Antônio, São Gonçalo ou São João pra ajudar. Em todos estes momentos, vida e religião permanecem integradas.

A cultura popular é uma realidade dinâmica e não pode ser entendida apenas como uma prática tradicional, fixada no passado. Em benefício do doente, o curador popular procura ser coerente quando integra valores novos.

A medicina oficial e a popular são diferentes, desde o lugar do tratamento, os nomes dados aos membros do corpo, especialmente a interpretação da doença e, consequentemente, o processo de cura. Enquanto o povo usa ‘meizinha’ e o médico dá ‘remédio’, uma mulher do povo disse no consultório: Vamos ver, seu doutor, se sua meizinha é remédio p’ra minhas macacôa.[1]  

A medicina popular conhece grande variedade de remédios. Além das plantas medicinais, utiliza banha de vários animais, gema de ovo, óleo de tanajura, pedra do bucho, creolina, leite materno, terra, riscado de cinza, picumã e mais uma infinidade de coisas. Abre-se um grande campo para pesquisas. No entanto, rezas, os remédios e, especialmente, as simpatias da medicina popular dificilmente são tolerados por padres, médicos ou psicólogos. Nesse angu de caroço, é bom observar que, quando os serviços oficiais de saúde funcionam bem, eles enriquecem e transformam as práticas e saberes medicinais populares, e vice-versa.

Como a religião e a cura dos doentes funcionam juntos na cultura popular?
Um remédio, que resolve problemas graves, é chamado um "santo remédio". Diz o povo: Deus querendo, água do pote é remédio. Em Manhuaçu (MG, 2000), R.H. de Barros, ao tomar algum medicamento, rezou: Em louvor das três pessoas da Santíssima Trindade, e as cinco chagas do Nosso Senhor Jesus Cristo, em ação de graças. Muitas benzedeiras, após a oração, aconselham ao doente o uso de plantas medicinais. Várias rezas mencionam remédios. Segundo as bênçãos de curar cobreiro, fogo selvagem e queimadura, Jesus ensina a curar com água da fonte e raminho do monte. Na oração contra impingem, Nossa Senhora ensina a curar com guspe da boca e cinza do lar, com os poder de Deus e da Virgem Maria. Da mesma forma, a oração contra engasgo vem acompanhada de um murro nas costas ou uma colher de farinha de mandioca. Sem obter alívio com os remédios do médico, a rezadeira L.T. Ramalho disse: Rezei, pedi a Deus e Nossa Senhora para me dar um tino para saber o que ia fazer para não tomar esses comprimidos. Achei a alfazema e pus no garrafão (de pinga). Tomo um pouquinho com farinha de milho. (Araçuaí MG, 1980) Observamos que muitas plantas medicinais têm nomes religiosos: capim-santo, pau-santo, cardo-santo, fava-de-santo-inácio, erva-de-nossa-senhora, erva-de-são-joão, melão-de-são-caetano, erva-de-são-lourenço, raiz-do-espírito-santo. Também é muito interessante o costume de plantar na sexta-feira santa o fumo e o alho que servirão de remédio. O gesto popular ensina: Jesus, morreu na cruz não só para nos salvar dos pecados. Ele salva os doentes. Em tratar-se do conceito de “salvação”, a religião do povo é menos moralista que a religiosidade de muitos padres.

As simpatias constituem um assunto delicado que merece uma atenção especial:

Na lingua grega, a palavra ‘simpatia’ significa ‘sentir juntos o mesmo’. Disso vem a definição: “Relacionamento espontâneo e feliz entre pessoas, sem explicação do porquê.” Por isso, surgem expressões como: Seu santo bateu com o meu. O oposto se dá quando os anjos ou as sortes não combinam.

Outra definição de ‘simpatia’ é:
“Ação de teor não racional executada para curar doenças e consertar todo tipo de males. A simpatia é de larga aplicação no combate a doenças e problemas de difícil solução.” No Ceará, é chamada simbolia.[2] Nestas simpatias são usados: pé de coelho; chocalho de cascavel; figa; cavalo-marinho; dente de onça; sineta do altar, vários tipos de pó e muitas outras coisas. Na região amazônica, para conquistar um grande amor, a pessoa compra um ‘atrativo’.

A expressão ‘Fazer uma simpatia’ refere-se a ações benéficas sem explicação racional a favor de amores, economias, estudos, defesa do corpo, saúde de humanos e animais. Seu uso é antiquíssimo. Alguns cientistas encontraram o uso de simpatias na antiga Mesopotâmia.
A ação não racional (mágica, não lógica) baseia-se na intuição que analogias podem produzir efeitos favoráveis. E isso já era praticado na alquimia medieval. Paracelsus (1493-1541) foi um médico e filósofo suíço que julgava importante a "antiga arte de fazer uma simpatia com a doença" e, para isso, elaborou um sistema lógico a respeito. Ele disse: "Os semelhantes curam-se com semelhantes".

Na história da medicina no Brasil: Em seu “Erário Mineral” (1735), o cirurgião Luís Gomes Ferreyra, ao ensinar o uso de remédios da Terra e do Reino, defende claramente o uso de pós de simpatia e da pedra cordial encontrada no bucho de alguns veados.[3]

Em "The golden Bough" (2007), o antropólogo inglês James G. Frazer escreve sobre a ‘magia simpática’: "Quando analizamos os princípios básicos da magia, podemos resumi-los em dois pontos essenciais: (1) o semelhante produz o semelhante, ou seja, a consequência se parece com a causa; e, (2) coisas que uma vez tiveram contato entre si, continuam se influenciando depois da quebra do contato físico."[4]             

Ainda hoje, várias simpatias, em uso entre nós, explicam-se por analogias; p.ex.: a uma criança que gagueja dão de beber água na campainha do altar que se comunica bem; em São Paulo e Minas Gerais, quando um menino caminha com dificuldade, esfregam-lhe nas pernas a bolinha de ovinhos amarelinhos encontrada na teia das aranhas ou lavam-lhe as pernas com o cozimento de um pezinho de veado, pois aranhas e veados têm pernas ligeiras. Depois de plantar uma semente de melancia, alguém deve sentar-se um pouco na cova ‘para dar frutas grandes’; analogia fácil de compreender. Para escapar de inimigos e assaltos, é bom carregar um pedacinho de couro do lobo-guará, animal muito esperto e desconfiado.

Outras tantas simpatias são praticadas sem analogias aparentes. Tudo isso é perfeitamento comparável com o uso de amuletos e talismãs. O cidadão que só acredita naquilo que tem explicação, manda estas coisas para o reino da superstição. Mas, ... não ter explicação é próprio da simpatia. O funcionar das simpatias supõe algum relacionamento íntimo entre homens, animais, plantas, planetas. A intuição desta profunda união não leva em conta as leis de causa-fim.

Assim, p.ex., para secar o leite materno, a mulher põe no pescoço um cordão de talos de mamona. É bom contra mau-olhado, um raminho de arruda atrás da orelha; uma beleza. A mãe diz: Menino, joga seu dente de leite em cima do telhado e volte para cá sem olhar para trás; outro dente vai nascer. Em certos casos, a pessoa não pode voltar ao lugar onde a simpatia foi feita. Têm simpatias que a pessoa beneficiada não pode saber. Certas simpatias exigem que os objetos empregados (panela, faca) sejam ‘virgens’. Também a bolsinha dos patuás é feita de pano nunca usado. Além disso, observamos que algumas simpatias expulsam o mal: tirar cobras do pasto e lagartas na horta, mandar a visita embora, transferir a doença para uma árvore; e outras correspondem a desejos: pescar um peixe bom, arrumar dinheiro, conseguir um casamento feliz, galinha botar ovo. Em todo caso, é notável encontrar (1) a pratica racional, (2) a simpatia sem lógica e (3) o ritual religioso, executados simultânea- e conscientemente, pelo ser humano em diversas culturas.

E, para não dizer que não falei dos santos protetores, eis mais uma analogia: Enquanto a medicina científica e tecnicamente avançada continua de difícil acesso para muitos, entre as alternativas encontra-se o curador que peleja com o sofrimento alheio que ele já conhece por experiência própria. O “curador ferido”, arquétipo estudado pelo psiquiatra Carlos Gustavo Jung (1975-1961), corresponde também a santos patronos como Santa Luzia que perdeu os olhos e agora protege os olhos do povo; São Lourenço que morreu queimado e cura queimaduras; São Sebastião morreu flechado e cura doenças contagiosas (a flecha simboliza a peste, na Idade Média). Há outros santos assim.

Na medicina popular, rezas, remédios e simpatias misturam-se tanto que não há como separá-las. A pedra bezoar, encontrada no estômago da vaca, é usada como remédio e como simpatia. Muitos afirmam que as simpatias são feitas com fé. É comum a simpatia feita em forma de cruz. Bentinhos e patuás, frequentemente contêm a oração escrita juntamente com alguma simpatia. A chave do sacrário cura sapinho e a medalha de São Dimas protege a casa contra assalto. ‘Medidas’, como a fita do Senhor do Bonfim ou a fita da medida do corpo de um doente, podem servir como simpatias.

Simpatias são usadas especialmente para resolver casos complicados como: soluço, verrugas, hemorroidas, bronquite e coqueluche; também para ajudar a criança com dificuldade de caminhar, para favorecer o parto difícil, expulsar a placenta, emagrecer, crescer cabelo, prevenir-se contra mau-olhado. Há simpatias para curar animais.

Conclusão: Tentar levar a sério o tripé sagrado da medicina popular de rezas, remédios e simpatias, é um desafio que nos obriga a pensar o mundo a partir do outro que talvez seja pobre, não saiba ler, mas certamente recebeu uma educação diferente, viveu a experiência religiosa através de costumes a nós desconhecidos.

Este povo tem fé em Deus, procura ser coerente no pensar e participar na sua comunidade portadora de cultura própria. Não podemos descartar logo tudo que não caiba nas nossas teorias. Provavelmente podemos sim aprender com eles e eles conosco. Esta busca de tentar compreender o outro não significa apelar para a ignorância. Eles e nós temos muito em comum. Vivemos na mesma era e na mesma nação. Somos criaturas e filhos do mesmo Deus.

Francisco van der Poel (Frei Chico) é autor do livro "Dicionário da Religiosidade Popular: Cultura e Religião no Brasil"




[1] SÃO PAULO, Fernando. Linguagem médica popular no Brasil. Rio de Janeiro: Barretto & Cia, 1936. v.1. p. 18.
[2] BARROS, Sousa de. Arte, folclore, subdesenvolvimento. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. nota 41. p. 115.
[3] FERREYRA, Luís Gomes. Erário Mineral. (Lisboa, 1735) Belo Horizonte: Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, 1997 (ed. fac-similada) p.96.
[4] FRAZER, James George. De gouden tak: over mythen, magie e religie. Amsterdam: Olympus, 2007. p.31.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Arquiteto indígena do Xingú vira professor em universidade de Brasília



Especialista na construção residencial tradicional da tribo Kamayurá do Alto Xingú, o arquiteto indígena, Maniwa Kamayurá foi um dos mestres da disciplina de Artes e Oficios dos Saberes Tradicionais oferecida pela Universidade de Brasília (UnB). O projeto Encontro de Saberes, realizado em parceria com a SID/MinC teve o objetivo de levar aos alunos universitários o conhecimento arquitetônico presente na cultura indígena.

Maniwa e seu filho passaram cerca de duas semanas em Brasília compartilhando com os alunos um pouco do conhecimento milenar de seu povo. Na atividade principal, os índios e os alunos construíram uma maquete do que seria uma moradia tradicional Kamayurá, feita com materiais orgânicos e fibras, praticamente a mão quase sem utilizar ferramentas.

A construção original que dura um período de 15 a 20 anos, leva cerca de 7 meses para ficar pronta e segundo o mestre, tem uma estrutura inspirada na anatomia do ser humano, com costelas, pés e peito. "A gente faz uma pessoa e essa casa não é inventada, ela vem de nossos avôs. Só a família mora na casa, sogra, filhos, genro, tios, netos".

Segundo o professor da universidade, Jaime Almeida, a arquitetura indígena faz parte de uma relação direta entre seu construtor, sua família e a comunidade. A construção das casas é trocada por comida e, além disso, os arquitetos índios passam a ter um reconhecimento social na comunidade por serem "pessoas de talento".

A estudante do curso de arquitetura e urbanismo, Lívia Brandão foi uma das participantes da disciplina e aprovou as aulas do mestre Maniwa. "É uma oportunidade inédita para nós estudantes termos acesso a forma de construção de outros povos. É incrível como eles tem a capacidade de construir as suas próprias casas e como elas são perfeitas na relação com a temperatura, luminosidade e relação com a natureza. O modelo que a gente busca, de sustentabilidade eles já aplicam há muito tempo, porque se entendem parte dessa casa, dos materiais que são usados por eles. Ter acesso a essa sabedoria e a essa historicidade é um privilégio".



Assista ao vídeo sobre a aula: http://vimeo.com/18017653


Fonte: Arquitetura Sustentável , 20/02/3014

Nota do Blog da Rede Saúde e Cultura de Minas Gerais: a matéria se refere à Edição 2010 - Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais. Saiba mais AQUI

Leia também: UFPA desenvolve Projeto Encontro de Saberes em parceira com UNB

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