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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Guardiãs da cura: a sabedoria popular das benzedeiras em Alagoas

Por Renata Arruda

Principalmente no interior das cidades nordestinas, a figura folclórica das benzedeiras ou rezadeiras curam, de acordo com a tradição popular, algumas enfermidades da alma e do corpo com rezas mágicas e especiais. Geralmente, essas mulheres utilizam plantas como os ramos de arruda, mastruz, crista de galo, entre outras, dependendo da moléstia sofrida.

Quebranto, ventre caído, fogo selvagem e mau olhado são algumas das “doenças” lendárias mais comuns no universo da cura popular dessas misteriosas senhoras. Quem não se lembra de ter sido levado, quando criança, para se tratar com uma dessas curandeiras? Não importava o motivo, fosse dor de cabeça ou cansaço, muitas crianças eram levadas pelas anciãs da família aos tais rituais milagrosos.

A Agência Alagoas conversou com três mulheres de fé e encantos que, por meio da antiga tradição quilombola, levam cura e paz para milhares de alagoanos. Na série de reportagens Guardiãs da Cura, contaremos a história dessas mulheres que curam pela fé e pelo amor.

A pioneira e mais ilustre herdeira da cultura quilombola

Anézia Maria da Conceição, 112 anos, é a mais antiga benzedeira de Alagoas, considerada patrimônio vivo e uma verdadeira fonte inesgotável de sabedoria primitiva da arte popular. Moradora célebre da cidade de Santa Luzia do Norte, área metropolitana de Maceió, é bastante querida pela população.

Dizer que já rezou por quase todos os moradores não é exagero, pois até hoje, mesmo com a fragilidade decorrente da idade avançada e a voz arrastada, ainda realiza proezas com quem a procura. Além de ser rezadeira, desde os 12 anos de idade costumava realizar partos na região.

“Praticamente todas as mulheres das cidades vizinhas vinham aqui para casa para minha mãe [Anézia] fazer os partos. Naquela época, não tinha médico por aqui, e era ela quem trazia as crianças para o mundo”, diz Nêga, a primogênita entre as cinco filhas da benzedeira.


Tantas décadas fazendo orações e partos lhe renderam o carinho da população e uma bela homenagem. Em breve, Anézia ganhará uma estátua de destaque na Praça da Liberdade, a principal da cidade.

Católica fervorosa, aprendeu a rezar ainda criança e o dom da cura não tardou em chegar. Ela afirma que aos 10 anos já ouvia uma voz divina que a orientava a ajudar as pessoas: “Conseguia ver o que estava de errado no corpo e na alma das pessoas e Deus me usava como instrumento para socorrê-las. A cura dependia da fé de cada um, esse era o segredo”.

Devota de padre Cícero, Anézia conta que em uma de suas romarias à Juazeiro do Norte presenciou o religioso profetizar sobre a futura perda da visão da rezadeira. O prenúncio se cumpriu quando, aos 80 anos, ela realizou o último parto. Mesmo com a cegueira, continuou usando os outros talentos para trazer bem-estar às pessoas até hoje.

Dona Anézia teve cinco filhos, 40 netos, 20 bisnetos e dez tataranetos. Dos descendentes, nenhum herdou o seu dom.

Fonte: Agência Alagoas

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Festival de Inverno UFMG - Mestres quilombolas, religiosos e indígenas pregam respeito à biodiversidade


Seu Badu, do quilombo Matição, entre Mãe Mona, do terreiro Roça Poço Ayokê, e 

Guilherme Nogaro, especialista em sustentabilidade ambiental.  Fotos de Bruna Brandão


“Com licença, senhor das matas!”. Este foi um dos refrões de orações e cânticos de diversas tradições que precederam caminhada realizada esta manhã na Estação Ecológica, no campus Pampulha. E dá a dimensão do respeito à biodiversidade que marcou encontro sobre sustentabilidade ambiental promovido pelo Festival de Inverno. Participaram mestres de quilombos, terreiros, comunidades indígenas e grupos de congado, sob coordenação de Pedrina Lourdes dos Santos, reinadeira e mestre da Guarda de Moçambique de Oliveira.

“São guardiões da biodiversidade e de um pensamento diferente, que preza práticas zelosas da natureza. O conhecimento acadêmico tem muito a aprender com a modéstia dos povos tradicionais, para os quais o humano está em pé de igualdade com todos os elementos da natureza”, afirmou a professora Rosangela de Tugny, pesquisadora da música indígena, que recebeu os participantes como representante da UFMG.

A lógica de síntese que rege a ciência que se ensina na universidade, de acordo com a professora da Escola de Música, não é o principal operador do pensamento dos povos indígenas, por exemplo. “Os índios têm um sistema de classificação que é qualitativo, que valoriza a especificidade e a multiplicidade. Assim como o projeto das culturas tradicionais é múltiplo, não é apenas humano, por isso elas são grandes defensores da biodiversidade”, disse Rosângela.

Silvio de Siqueira, ou seu Badu, líder do quilombo de Matição, em Jaboticatubas, elogiou a iniciativa da troca de experiências com professores e alunos da UFMG. E pregou a humildade que caracteriza o homem do campo. “Todo mundo tem que conhecer mais sobre a terra e saber que é preciso combater o agrotóxico. O povo não tem alimento sadio, e o organismo não aguenta isso, a medicina não dá conta de curar”, disse ele, que é profundo conhecedor das plantas medicinais.

Seu Badu lembrou que os quilombolas e membros de outras comunidades precisam de apoio para permanecer em suas terras. E defendeu que não existe "terra ruim", porque é dela que saem os alimentos e os remédios. “Estamos fazendo covardia com a terra, e ela cobra de nós, os agressores”, ele enfatizou.

Permanência e harmonia

O especialista em sustentabilidade ambiental Guilherme Nogaro apresentou aos participantes a permacultura (cultura da permanência), metodologia que visa ao planejamento de ecossistemas de forma integrada. Segundo ele, é preciso “reconhecer a dinâmica da vida para organizar as culturas para a harmonia produtiva”.

“As relações ecológicas devem ser baseadas na cooperação e na solidariedade que, também através da comunicação, buscam a atualização e a transformação constantes”, disse Nogaro, que defendeu que a universidade alie as ideias de vida e serviço à tríade formada por ensino, pesquisa e extensão.

Rosangela de Tugny destacou que o Festival de Inverno é evento exemplar, que mostra a disposição da UFMG de se abrir ao mundo. “Há forças na instituição que desejam dialogar com outros universos. Os estudantes estão treinando outras temporalidades, diferentes formas de concertação. Os povos tradicionais trazem uma outra etiqueta, baseada em grande capacidade de escuta”, afirmou a professora.

Depois de exposições breves e das orações de respeito à natureza, os participantes partiram para uma trilha na Estação Ecológica (foto). O objetivo era que os mestres apresentassem as plantas segundo seus conhecimentos, ao som de cantos das diversas tradições.

O Festival de Inverno da UFMG segue até o dia 26. Para mais informações, acesse o site do evento ou as redes. sociais: www.facebook.com/FestivalUFMG ewww.twitter.com/FestivalUFMG.

Fonte: UFMG

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Campus, território do bem comum

Em seu retorno a Belo Horizonte, Festival de Inverno abre as portas da UFMG para manifestações de culturas não hegemônicas


Foto: Bruna Brandão

De 18 a 26 de julho, a UFMG será ocupada por lideranças indígenas, participantes das ocupações urbanas, reinadeiros, quilombolas, povos de terreiro, agricultores urbanos, cicloativistas, midiativistas, artistas, estudantes e pesquisadores. O evento, que volta a Belo Horizonte depois de 23 anos, encerra a última edição da trilogia do Bem comum – Diamantina sediou as duas anteriores – em um formato que vai transformar o campus Pampulha em um território livre, povoado por múltiplas vozes e cantos e diversos modos de viver e de conhecer. Todas as atividades são gratuitas, e as inscrições serão feitas pela internet.

A 46ª edição vai fazer do campus Pampulha um ambiente tomado por ocupações livres e horizontais, em especial as provenientes das culturas indígenas, afrodescendentes e urbanas tradicionalmente excluídas. “São ocupações que inventam outros modos de vida em comum, e que podem nos inspirar a criar novas formas de habitar o território”, explica o professor César Guimarães, do Departamento de Comunicação Social, e coordenador-geral do Festival.

Para Guimarães, a hospitalidade dedicada aos grupos e sujeitos submetidos à exclusão, bem como aos seus saberes e práticas sociais, é uma forma de reinventar a reciprocidade que guia a relação da Universidade com a comunidade. “É uma temática que visa implicar ainda mais a Universidade nos dilemas que atravessam os nossos modos de vida em comum, que estão fraturados por persistentes processos de exclusão e de produção de desigualdade”, diz ele.

De acordo com o professor Fernando Mencarelli, diretor adjunto de Ação Cultural, a volta do evento à capital mineira ocorre em um momento em que a cidade demanda ações da Universidade e que a própria instituição “deixa claro que também é parte da cidade”.

A professora Leda Maria Martins, titular da Diretoria de Ação Cultural (DAC), órgão que realiza o evento, lança mão de uma metáfora para traduzir o retorno do Festival ao campus Pampulha. “Comparo esse movimento ao navio que sai em viagens pelo mundo e, em um dado momento, retorna para casa a fim de reabastecer e se realimentar. No caso do Festival, ele também volta para partilhar suas jornadas e experiências”, afirma.

A diretora de Ação Cultural lembra, ainda, que a proposta conceitual do Festival de Inverno é coerente com outras ações coordenadas pela DAC, como a Feira de Jequitinhonha, o Festival de Verão e o Quarta Doze e Trinta. “Em todas elas, temos nos empenhado para dar visibilidade a sujeitos e a saberes nem sempre contemplados no âmbito da Universidade. Se prestarmos atenção às programações do Centro Cultural e do Conservatório, perceberemos que elas visam ao bem comum”, argumenta Leda Martins.

A vice-reitora Sandra Goulart Almeida reforça a importância de receber na sede principal da UFMG grupos geralmente não integrados ao fazer acadêmico. “O processo do conhecimento e da aprendizagem é de mão dupla. A Universidade se nutre da interlocução com outras formas de saber. Além disso, a interação com a comunidade em torno de temas como alimentação, mobilidade e tratamento do lixo é uma excelente oportunidade de reafirmar o campus como um espaço público.”

Cinco eixos

Durante o Festival, o campus receberá uma série de Intervenções, em que serão instaladas redes, espreguiçadeiras, bancos de praça, espaços para jogos, fornos, fogões, cabanas de bambu. Por sua vez, Grandes encontros, transdisciplinares e abertos, vão reunir os participantes para conversas em torno do tema Bem comum. Entre os assuntos abordados estarão as ocupações, a retomada das terras indígenas, a mobilidade urbana, a biodiversidade, as mídias públicas e livres, as culturas urbanas e as relações entre o campus e a cidade.

Serão cinco grupos de trabalho: Injó dya zuela (Casa do canto); Grande assembleia (Aty guasu) dos povos indígenas no Brasil; Parque das imagens; Ocupa mídias; e Campus, território do bem comum. Este último terá a mobilidade como uma de suas temáticas centrais. O Festival contará com ônibus circulando gratuitamente dentro do campus e em conexão com locais estratégicos da cidade, como as ocupações urbanas e a região central. Outra ação é a implantação de um sistema experimental de bicicletas compartilhadas e de ciclovias no campus, o que exigirá a redução de carros no campus durante todo o evento. Os participantes farão convocatórias públicas de doações, buscarão bicicletas descartadas para reforma, desenharão projetos e construirão bicicletários, entre outras ações.

A Grande assembleia (Aty guasu) dos povos indígenas no Brasil, por sua vez, focalizará a retomada de terras e a afirmação dos direitos indígenas. A assembleia reunirá lideranças indígenas Guarani e Kaiowá, Terena, Caipó, Munduruku, Tupinambá, Pataxó, Guajajara, Maxakali, Mbya e Kaikang, provenientes de diferentes regiões do país. Já o núcleo Injó dya zuela (Casa do canto) sediará manifestações vinculadas aos saberes e às práticas de culturas afrodescendentes: cantos, rezas, rituais, danças, técnicas medicinais, entre outros.

O núcleo Parque das imagens promoverá mostras de filmes com projeções em diferentes espaços do campus, além de reunir grupos de trabalho dedicados à produção em fotografia, vídeo e cinema. Serão oficinas e ensaios, fotográficos e cinematográficos, relacionados com a temática das ocupações. Já no núcleo Ocupa mídias, veículos institucionais como o BOLETIM, a TV UFMG e a Rádio UFMG Educativa serão ocupados por grupos e artistas envolvidos em movimentos midiativistas de criação colaborativa e experimental.

Arte do lixo

Um campo a ser amplamente desenvolvido no Festival é o da agricultura. Horta e pomar comunitários serão plantados no campus, com foco em cultivos tradicionais, por meio dos quais serão disseminados conhecimentos de chuvas, técnicas de carpir e regar e cuidados de manutenção. A ideia é promover a discussão sobre a criação de pomares e hortas em espaços públicos e privados, além de estimular a troca de sementes de espécies vegetais entre os participantes.

Já os modos de se lidar com o lixo das cidades entrarão na pauta do projeto O lixo não existe. Apoiados por um coletivo especializado em projetos de arte e design para transformação social, os participantes vão organizar atividades de logística reversa, transformando o lixo do evento em arte. Ações de reciclagem e compostagem também serão desenvolvidas, inclusive de pesquisa, no sentido de se investigarem as formas como a UFMG descarta seus resíduos.

Também haverá atividades com foco nas Comidarias. Receitas tradicionais da culinária indígena e quilombola serão levadas a piqueniques, banquetes públicos e bandejões do campus. Ainda está programada uma feira de alimentos orgânicos.

Quando a noite cair, a UFMG será tomada por uma programação artística especial, com shows, concertos, performances e espetáculos teatrais em diferentes locais do campus – sempre em consonância com as principais preocupações do Festival. Já estão confirmados, dentre outros, nomes e atrações como Siba, Família de Rua, Paulo Freire, Encontro de saraus, MC Dodô, Roda de Jongo e Samba de BH.


Fonte: Boletim UFMG

terça-feira, 29 de abril de 2014

Patrimônio Cultural de Povos e Comunidades de Matriz Africana será premiado pelo IPHAN



Estão abertas as inscrições para a primeira edição do Prêmio Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), destinado a iniciativas para o Patrimônio de Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. O edital está disponível no site do IPHAN (clique aqui) e foi publicado nesta segunda-feira, dia 28 de abril, no Diário Oficial da União (DOU). O prazo de inscrição termina em julho de 2014.


A documentação comprobatória da ação e seus anexos deverão ser enviadas pelo serviço de Correios aos cuidados do Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN. O endereço é SEPS 713/913, 4º andar, CEP 70.390- 135, Brasília - DF. Poderão concorrer pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos que sejam representantes dos Povos e Comunidades tradicionais de matriz africana, conforme especificado no Edital. Informações complementares poderão ser obtidas pelo fone (61) 2024-5434.

O Prêmio Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana – 2014tem como objeto o reconhecimento às ações de preservação, valorização e documentação do Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, já realizadas, e que em razão da sua originalidade, excepcionalidade ou caráter exemplar, mereçam divulgação e reconhecimento público. A seleção ocorrerá em duas etapas. A primeira, de habilitação, será conduzida por uma Comissão Técnica composta por técnicos do IPHAN. A segunda fase, de avaliação, será conduzida por uma Comissão de Seleção, composta por técnicos do IPHAN, representante da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR/PR) e representantes da sociedade civil.

No ato da inscrição, os participantes deverão escolher entre duas categorias e linhas de ação específicas em cada uma delas. Na Categoria 1 serão oferecidos dez prêmios de R$ 40 mil para ações realizadas de preservação do Patrimônio Cultural Tombado pelo IPHAN ou em Processo de Tombamento pelo IPHAN, que tenham sido desenvolvidas pelas associações representativas dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana. Outros 25 prêmios de R$ 25 mil serão destinados à Categoria 2, premiando ações de preservação do Patrimônio Cultural que tenham sido desenvolvidas pelas associações representativas dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana sediados em qualquer parte do território nacional.


 Fonte: DPI - ASCOM IPHAN

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Lançamento do livro Ancestralidade Africana no Brasil – memória dos Pontos de Leitura


Foi lançado no último dia 28/03, no Museu Afro Brasil, em São Paulo, o livro Ancestralidade Africana no Brasil - memória dos Pontos de Leitura. A publicação traz a história do projeto "Memória dos Pontos de Leitura Ancestralidade Africana no Brasil", implementado a partir da experiência de 10 Pontos de Leitura em comunidades de matriz africana. O Programa Pontos de Leitura é uma ação do Ministério da Cultura (MinC), desenvolvida pela Fundação Biblioteca Nacional, em parceria com a Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural (SCDC/MinC).
A experiência dos Pontos de Leitura, relatada no livro, foi desenvolvida nas comunidades quilombolas de Mesquita (GO), Castro (PR), Curiau (AP), Macuco (MG) e nas comunidades tradicionais de Terreiro de Matriz Africana Associação Afro religiosa e Cultural Ilê Iyaba Omi (PA); Associação Santuário Sagrado Pai João de Aruanda (PI); Centro Memorial de Matriz Africana 13 de Agosto (RS); Egbe Ile Iya Omidaye Ase Obalayo (RJ); Ilê Axé Omidewá (PB) e Centro Cultural Orùnmilá (SP).
O projeto incentivou práticas pedagógicas já existentes nas comunidades, auxiliou os integrantes do programa na produção e difusão de conteúdos na web sobre a cultura afro-brasileira; além de funcionar como um ponto focal da Rede Cultura Viva Afro-Brasileira.
O livro foi lançado pelo Instituto Políticas Relacionais (IPR), em parceria com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNPB). É resultado de um projeto desenvolvido pela Rede Pontos de Leitura Ancestralidade Africana no Brasil, que conta com apoio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN/MinC), da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR/PR) e da SCDC/MInC.
Acesse  www.ancestralidadeafricana.org.br para conhecer o projeto

Com informações da ASCOM/MinC

terça-feira, 18 de março de 2014

Programa Ecoforte apoiará redes da agroecologia

Lançado na sexta-feira (14) no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), o Programa Ecoforte vai apoiar organizações que atuam na promoção da agroecologia, extrativismo e produção orgânica. Faz parte do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Brasil Agroecológico), e seu primeiro edital prevê o investimento de R$ 25 milhões financiados pela Fundação Banco do Brasil, o Fundo Amazônia e o Fundo Social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A solenidade contou com a presença do Ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, e representantes do governo e da sociedade civil.

O Ecoforte visa fortalecer as redes de agroextrativismo e produção agroecológica e orgânica, com foco em produtores familiares, extrativistas, povos e comunidades tradicionais, dando ênfase na inclusão das mulheres e juventudes, explicou Conceição Gurgel, da Fundação Banco do Brasil. Vai ampliar o trabalho que as redes desenvolvem nos territórios com a produção de base agroecológica e identificar práticas e instrumentos que fortaleçam essas unidades, complementou.

De acordo com Denis Monteiro, secretário executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), é muito significativo o lançamento do programa no ano internacional da agricultura familiar, camponesa e indígena, e num momento em que o mundo busca soluções para crises que colocam críticos desafios à segurança e soberania alimentar. Ele também se referiu ao recente documento do relator da ONU para o direito humano à alimentação, que aponta a agroecologia como enfoque para a reestruturação dos sistemas agroalimentares. 

“A agroecologia proporciona as condições para a produção de alimentos em quantidade, qualidade, e diversidade, promovendo a saúde humana e ambiental, evitando desmatamentos e conservando os solos, as águas e a biodiversidade. Para a ANA, o Plano é a expressão do reconhecimento do atual governo federal desses potenciais da agroecologia. Como sociedade civil organizada, cobraremos sua efetivação. O Programa Ecoforte, ao se orientar pelo enfoque territorial, é um elemento chave para a efetivação do Planapo”, afirmou Monteiro. Ele mencionou, no entanto, que a expectativa era de um montante maior de recursos destinados ao primeiro edital.

“É um estado feito pelas elites para financiar os grandes, e nós vamos tentando mudar a lógica. Mas dá um trabalho enorme, tudo para eles é rápido e para os pequenos é um esforço enorme. As pessoas que estão no governo e têm juízo sabem que isso passa, e só vale quando você presta um serviço exatamente na lógica que nos moveu na década de 70, que é o ideal de construir a justiça. E o projeto da agroecologia é lindo, produzir o alimento respeitando a terra e dando autonomia para as pessoas viverem com dignidade e ao mesmo tempo oferecendo um produto que dá vida saudável, não dá câncer. É evidente que estamos felizes ainda que esse resultado esteja longe do que gostaríamos, queria estar anunciando muito mais, mas vamos continuar brigando. Os recursos públicos serão democratizados, acabou o tempo da casa grande e da sensala”, destacou o ministro.

O secretário geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, reconheceu a limitação do programa frente às iniciativas do governo em relação a outras políticas. Disse ainda que é o resultado da costura paciente, feita pela pressão, briga, protesto e generosidade de quem faz militância e aqueles que ocupam postos dentro do estado. Para ele, as conquistas ainda são pequenas mas alguns caminhos estão sendo encontrados para mudar a lógica do Estado graças a pressão dos movimentos sociais.

Resultado da luta histórica de um conjunto de pessoas e organizações, o Ecoforte é um dos programas mais importantes para consolidação do Planapo, reforçou Sandra Procópio, membro da Subcomissão Temática de Produção Orgânica. “Não é um favor, é um direito, resultado de um longo processo de construção. Dentre os desafios, esperamos que o impacto do programa chegue às pessoas onde o próprio censo do governo mostra como populações mais vulneráveis, e ajude a superar o problema da fome que ainda temos. Pensar num estado e processo que supere os mecanismos de burocracia para acesso dos programas e políticas do governo. Supere também a violência de gênero, a participação desigual das mulheres nas ações e execuções. O que estamos construindo é para as futuras gerações, outro modelo de sociedade que acreditamos ser possível”, ressaltou.

Ainda que limitado, esse é apenas o primeiro edital nessa linha financiado pelo BNDES, afirmou Francisco Oliveira, assessor da presidência do banco. Segundo ele, a agroecologia é estratégica na linha de financiamento da entidade para a agricultura e a agricultura familiar. “Cabe às organizações cobrar do banco o financiamento. BNDES tem um papel importante no Pronaf, é preciso chamá-lo e criar programas de convergência para que papeis se somem. Foi assim no Terra Forte, e acreditamos que seja assim no Ecoforte também. Não é a fundo perdido, como se dizia antigamente, é recurso não reembolsável, é parte do lucro do banco. Estamos dispostos a fazer muitos editais, temos que ir atrás dos recursos e cumprir com os compromissos. Se trata de uma disputa de fundo público. É preciso contar com entidades fortes da sociedade civil. Exemplo das cisternas da ASA, ao todo 20 mil, R$ 200 milhões”, disse.

O Programa Ecoforte vai apoiar projetos voltados à instensificação das práticas de manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade e de sistemas produtivos e de base agroecológica. O total dos investimentos está na ordem de R$ 175 milhões, e no primeiro edital serão destinados R$ 25 milhões a 30 projetos selecionados, cada um no valor máximo de R$ 1,25 milhão. Os agricultores familiares, assentados da reforma agrária, povos e comunidades tradicionais e indígenas, bem como suas associações e cooperativas, serão os beneficiários. Os projetos terão dois anos para a execução. Mais detalhes do Programa na página da Fundação Banco do Brasil.

Fonte: Articulação Nacional de Agroecologia

terça-feira, 11 de março de 2014

III Colóquio Internacional Povos e Comunidades Tradicionais, 22 a 25/04, na Unimontes

Povos e comunidades tradicionais têm se articulado de modo crescente na sociedade brasileira e no contexto internacional. A condição de articulação dos diferentes grupos tradicionais e seu reconhecimento público nos níveis nacional e internacional se apresenta de modo diferenciado. Muitos grupos já concluíram seus processos de auto-identificação, outros encontram-se em diferentes etapas e, finalmente, existem aqueles que ainda nem iniciaram esta caminhada. Mas, há que se destacar que a visibilidade desses grupos aumentou muito nos últimos anos, tanto no Brasil como também em outros países. Os institutos estatísticos em diversos países registraram um crescimento enorme das populações indígenas. No caso do Brasil, é notório o aumento de processos de auto-identificação das comunidades quilombolas.

Mesmo que a influência dos povos e comunidades tradicionais na política e na agenda do desenvolvimento geral no Brasil seja ainda muito reduzida, estes grupos não podem mais ser ignorados. Concomitantemente, os debates científicos têm levantado evidências incontestáveis que os povos e comunidades tradicionais continuam sendo ameaçadas pelos grandes projetos de desenvolvimento e pelas diversas unidades da conservação.
O objetivo do III Colóquio Internacional sobre Povos e Comunidades Tradicionais  é articular debate, ações políticas e contribuições para um outro modelo de desenvolvimento que inclua as distintas visões de mundo e práticas sociais dos povos e comunidades tradicionais do Brasil e de outros países. Tal articulação se dará em torno das discussões realizadas pela academia, pelos movimentos sociais e movimentos de territorialização, visando garantir os direitos dos povos e comunidades tradicionais, dar visibilidade às suas reivindicações territoriais e sua existência política, além de apresentar propostas inovadoras no debate sobre outro desenvolvimento. É também, momento de articulação e de troca de experiências entre os diversos grupos sociais com especificidades históricas e culturais próprias.  Estarão presentes indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais e intelectuais do Brasil, da Alemanha, da Índia, da Colômbia e outros países. O colóquio tem como proposta mesclar mesas e espaços de diálogos nos quais a academia e os povos tradicionais possam debater a partir de quatro eixos temáticos: 1)Identidade, Território e Cultura; 2) Educação e Saberes Tradicionais; 3) Sociobiodiversidade e sustentabilidade  e 4) Economias.
Mais informações AQUI.


Fonte: Combate Racismo Ambiental

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Mapa da Mídia nas Comunidades Tradicionais e Rurais

Não e fácil fazer rádio comunitária ou livre no Brasil. As emissoras que optaram por pedir e conseguiram ter uma outorga sofrem com as restrições que impõe a Lei 9612 em termos de potência de sinal e de financiamento. As rádios que têm ou querem um reconhecimento legal sofrem com a perseguição por parte das agências reguladoras e da Polícia Federal.
 
Fora das cidades os problemas se multiplicam, porque é ainda mais difícil e caro organizar equipamentos, formação e recursos. A estatística do Ministério das Comunicações reflete essa situação. Apenas uma rádio outorgada aparece sediada em Terra Indígena, duas em assentamentos rurais, 32 com sede em zonas rurais e nenhuma em comunidades quilombolas. Porém, isso não significa que não haja rádios no ar onde se realiza o direito a comunicação diariamente. Existem várias experiências, apropriações e experimentações.
 
A AMARC Brasil tomou conhecimento disso durante o seminário “Rádio Comunitária para todos os povos” onde foi iniciado um mapeamento colaborativo da mídia comunitária nas comunidades tradicionais e rurais. Foi uma dinâmica muito interessante e rica porque decidimos continuar esse esforço online sem perder a ampla participação que o mapa teve no seu início.
 
Graças ao software livre Mapas de Vista agora existe uma primeira visualização exploratória das diversas iniciativas. O mapa permite filtrar as mais de 40 mídias por categorias. São documentadas rádios e TVs comunitárias ou livres, produtoras comunitárias e centros de mídia audiovisual. Todos os posts no mapa contêm uma breve descrição, uma foto e um link para saber mais sobre um certo projeto.
 
Sem dúvida, trata-se de uma mapa forçosamente incompleto. Mas é um primeiro passo para fazer visível e audível muitas mídias comunitárias ainda pouco conhecidas. É o melhor é, tod@s vocês podem participar para completar esse mapa. Deixem os seus comentários ou contatem a AMARC Brasil para registrar-se como colaborador@.
Boa navegação,
AMARC Brasil
 
 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana é vitória na luta contra o racismo


Política lançada pela SEPPIR em emocionante evento contou com mais de 300 participantes é marco na defesa da ancestralidade africana


Depois de um ano de trabalho e articulação – o que envolveu a criação de comitê interministerial coordenado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), por meio de sua Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (SECOMT) – foi lançado na noite de terça-feira, 29, o I Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. A política é um instrumento de planejamento e implementação das ações prioritárias para as comunidades de matriz africana. O evento aconteceu no Salão Negro do Palácio da Justiça, em Brasília.



Apresentado por Silvany Euclênio, secretária para Comunidades Tradicionais, o plano foi construído com base no Plano Plurianual (PPA 2012-2015) e reúne um conjunto de políticas públicas que buscam a garantia de direitos, a proteção do patrimônio cultural e da tradição africana no Brasil. Além do enfrentamento à extrema pobreza com ações emergenciais e de fomento à inclusão social produtiva e Desenvolvimento Sustentável.



A SEPPIR coordena o grupo de trabalho responsável pela execução, monitoramento e revisão do plano e que agrega os Ministérios do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Meio Ambiente, Saúde, Educação, Cultura, Planejamento, Orçamento e Gestão, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Fundação Cultural Palmares, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).


Emoção - Após a assinatura do Plano pela ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, os representantes de comunidades de matriz africana, com suas vestes tradicionais e coloridas, tocaram tambores e entoaram cânticos e saudações em diferentes idiomas africanos, emocionando o público.

Para a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, o evento representou, mais do que um motivo de comemoração, o fechamento de uma etapa de um trabalho árduo e, a abertura de outra. “Concluir a atividade é uma conquista, mas vai nos abrir outros desafios. A partir de agora, temos que sair em busca da execução de todas as ações previstas”, disse.


 Mais de 300 pessoas participaram da solenidade, entre autoridades governamentais e de matriz africana, além de representantes de instituições não-governamentais, da sociedade civil e de órgãos de promoção da igualdade racial de todo o Brasil. Membros do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) também participaram.


Mesa – Além da titular da SEPPIR, Luiza Bairros, participaram da mesa de abertura do evento, as ministras Eleonora Menicucci (Políticas para as Mulheres), Maria do Rosário (Direitos Humanos) e, representantes das três maiores tradições africanas presentes no Brasil, Ketu, Jejê e Angola, Ogã José de Ribamar Feitosa Daniel – Pai Ribamar, Ogã Edvaldo de Jesus Conceição – Ogã Buda e Makota Valdina, respectivamente.


Também fizeram parte da mesa Eloi Ferreira, presidente da Fundação Palmares, deputados federais Luiz Alberto, presidente da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial em Defesa dos Quilombolas e, Érika Kokay, presidente da Frente em Defesa das Tradições de Matriz Africana, Márcia Rollemberg, secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Vânia Castiglioni, diretora-executiva de Administração e Finanças da Embrapa, Louise Henriques Ritzel, secrétaria-adjunta do Patrimônio da União.

Desdobramentos - Provocar o judiciário para que a imunidade tributária assegurada a templos religiosos pela Constituição Federal seja estendida também às casas de matriz africana. Essa foi a promessa feita por Deborah Duprat, vice-procuradora geral da República, em sua fala durante o lançamento do Plano.

De acordo com Débora, a laicidade do Estado não significa que ele seja contra a vivência das culturas de cada cidadão. “Mas se conferir um privilégio a uma, terá que fazer o mesmo com as demais. E essa imunidade não incide sobre os terreiros”, diz. A jurista assegurou que não vai levar muito tempo para que uma ação nesse sentido seja impetrada no Supremo Tribunal Federal. “Não depende só de mim, mas acredito que isso é uma coisa para se fazer muito rapidamente”, afirmou.

Fonte: SEPPIR

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Arquivo de notícias: Inclusão dos Povos Ciganos pelo Estado



"É importante que o Estado comece a incorporar grupos ciganos como parte do Brasil", afirma o  procurador Luciano Mariz Maia, responsável por uma audiência pública no Senado nesta quarta-feira (12), em Brasília, com a presença de integrantes da comunidade cigana e autoridades. 

Entre os principais temas a serem debatidos, estão seu direito ao acesso à saúde, à assistência e previdência social, ao reconhecimento e valorização dos modos de ser e viver e a luta contra a discriminação.  Inclusive, inexiste no país um censo populacional específico sobre o grupo.

O pedido para a realização da audiência foi encaminhado por Maia, que é subprocurador-geral da República e Procurador Federal dos Direitos do Cidadão/ Adjunto para a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, presidida pelo senador Paulo Paim (PT).

"O diferencial dessa audiência em relação às anteriores é que ela está baseada em um referencial teórico mais consistente e mais objetivo, a partir das reflexões do antropólogo Frans Moonen, que estudou durante 20 anos a cultura cigana e também com base em estudos acadêmicos. Dessa forma, a presença dos interlocutores do Estado  podem ajudar na viabilização das questões mais urgentes para a população cigana", disse o procurador ao UOL. 

A reunião é tida como uma grande conquista para os ciganos e tem como objetivo dar visibilidade e inserir na agenda política programas voltados a comunidades e organizações representativas dos ciganos  no Brasil.

"Acreditamos que essa iniciativa da PFDC [Procuradoria Federal dos Direitos dos Cidadãos] em conjunto com a Comissão de direitos Humanos no Senado seja capaz de dar um direcionamento mais efetivo a essas questões - e são várias, disse Elisa Costa, cigana do clã Kalderash e presidente da AMSK (Associação Internacional Maylê Sara Kali), entidade presente em vários países e que difunde a cultura cigana. " A AMSK acredita no diálogo como forma de instrumento para o reconhecimento da cidadania", declarou.

Sobre estudos populacionais, a professora Silvany Euclênio, secretária de Políticas para Comunidades Tradicionais da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial),  afirma que a Secretaria, em parceria com o Programa Interagencial de Gênero Raça e Etnia / ONU, contratou uma consultoria para a elaboração de um mapeamento preliminar das principais rotas de itinerância cigana no Brasil, a localização dos grupos sedentários, bem como a estimativa da população.

"Este produto nos dá condições para traçar um plano para o mapeamento mais detalhado.  Acreditamos que em 2013 já teremos condições de desenvolver um instrumento, envolvendo diversos ministérios, para coordenar um conjunto de ações que atendam às demandas prioritárias", afirma Euclênio.

Lembrando que, em 2009, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) fez um breve levantamento da situação de municípios, nos quais há presença de acampamentos ciganos.  Segundo o estudo, cerca de 290 municípios reconheceram a existência de acampamentos ciganos em seu território.

Também foram convidados para participar do encontro autoridades e representantes da Seppir, o IBGE, os Ministérios da Educação, Saúde, Justiça, Previdência e Assistência Social, Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério da Cultura, além da Secretaria de Direitos Humanos.      

Falta de acesso à saúde  
Euclênio afirma que diversas medidas voltadas ao povo estão em andamento no âmbito do governo federal. "A Seppir coordenou reuniões interministeriais em 2012, tratando da pauta cigana. Como exemplo, podemos citar o Ministério da Saúde, que publicou portaria 940, de 28 de abril de 2011, no artigo 23, parágrafo 01, que libera os povos ciganos da apresentação de comprovante de endereço para acessar o SUS, e tem realizado capacitação dos agentes da saúde para o atendimento a esta população", disse.

Para Nicolas Ramanush, presidente da ONG Embaixada Cigana do Brasil, embora uma das poucas conquistas do povo cigano tenha ocorrido no governo Lula, como a criação, em 2006, do Dia Nacional do Cigano, celebrado em 24 de maio, as medidas como a política diferenciada em sistema de saúde para os ciganos "apenas funcionam no papel", na prática a situação é mais complexa.

"Há dois anos, a minha mulher e eu conhecemos um idoso diabético que teve atendimento recusado no posto de saúde, pois não tinha documento. Ele vivia em acampamento, seus antepassados sempre viveram dessa forma, sem certidão de nascimento e/ou carteira de identidade, por exemplo", disse. Em 2012, Ramanush conquistou o Prêmio Betinho Atitude Cidadã, por causa dos trabalhos realizados junto a comunidades carentes de origem cigana.

Ramanush explicou que, segundo as tradições ciganas, após o cumprimento do período de luto, os parentes evitam falar sobre a pessoa falecida. Todos os pertences do idoso foram queimados juntamente com a sua barraca. "Para quem não é cigano, pode parecer estranho essa prática, mas tudo isso demonstra que o povo cigano não se prende ao passado, apenas segue em frente com foco no presente", disse.

De acordo com o Ministério da Saúde, os postos de saúde são obrigados a atender todos os ciganos, sem que haja a necessidade de apresentar quaisquer documentos. A assessoria de imprensa do órgão informou que se houver a negativa de atendimento por falta de documento, é necessário que os pacientes entrem em contato com as ouvidorias do SUS, através do telefone 136 ou por meio do portal do Ministério da Saúde.

Grupo historicamente invisibilizado
Apesar do esforço, Euclênio concorda com a falta de políticas públicas efetivas para os ciganos. "Sem dúvida as demandas dos povos de cultura cigana constituem uma pauta relativamente recente  para o Estado brasileiro. Os ciganos fazem parte daqueles segmentos populacionais historicamente invisibilizados, como ocorreu com outros povos e comunidades tradicionais no Brasil. Muitas vezes, esses grupos populacionais optaram pelo distanciamento das estruturas formais de poder, numa estratégia de manutenção da sua identidade étnica", disse.

Ramanush, por sua vez, critica a "ideia de integrar" os ciganos ao contexto social brasileiro. "Hoje se fala em integração da população cigana, mas a maioria já está integrada na sociedade exercendo diversas profissões. Nós até já tivemos um presidente cigano, o Juscelino Kubitschek (1956-1961). O que precisamos é de medidas para ajudar os ciganos que vivem à margem da sociedade", declarou.  

Origem e preconceito     
Não existem dados concretos a cerca da origem exata do grupo, mas estudos indicam que os primeiros ciganos vieram da Índia, especialmente por causa do romani (idioma praticado pela maioria dos ciganos) que traz semelhanças com o hindi (língua derivada do sânscrito).  

Na Europa e nos Estados Unidos a palavra  "gipsy"- cigano-, é evitada por estudiosos por apresentar caráter pejorativo, sendo adotado o termo "roma".  Basicamente os ciganos se dividem em três grupos denominados Rom, Sinti e Calon.   

O preconceito em relação ao grupo é registrado desde a chegada dos primeiros ciganos ao continente europeu no século 15.  Os hábitos do povo nômade, as vestimentas e o idioma logo causaram desconfiança nos Estados europeus com o reforço dos primeiros estigmas.   

O antropólogo Frans Moonen menciona no livro "Anticiganismo e Políticas Ciganas na Europa e no Brasil"  que "a ignorância se manifesta principalmente nos estereótipos, nas imagens anticiganas. O preconceito, e no final a discriminação, costumam aparecer depois. Combater o anticiganismo exige, portanto, combater os estereótipos, os preconceitos e as discriminações anticiganas".

Ramanush afirma que na Europa os ciganos sofrem mais preconceito que no Brasil. "Aqui no país o reforço do estereótipo é muito mais intenso do que propriamente a discriminação. Cria-se o preconceito de que cigano é ladrão de criança. Sem mencionar também a generalização até por conta da mídia. Nas manchetes lemos: cigano mata, cigano rouba. Muitas vezes o tal suspeito nem é de origem cigana", disse. 

De acordo com a Eisa Costa da AMSK, por causa do preconceito, diversos profissionais  liberais oriundos de famílias ciganas  apenas falam da origem dentro da família ou a pessoas próximas.  Ela ainda afirma que há aqueles que "omitem a origem cigana em situações de risco, quando não podem mais ser identificadas pelas roupas tradicionais e etc... Assim como a existência de ciganos que assumem a origem sem quaisquer receios". 

Mulher cigana    
Em relação à condição da mulher cigana dentro do grupo, Elisa Costa, da AMSK, afirma que alguns grupos ciganos mantêm o conservadorismo calcado em tradições seculares. Muitas famílias cultivam o patriarcalismo, evidenciando o papel de submissão da mulher.  Em geral, segundo o costume, a cigana quando se casa passa a pertencer à família do marido e deve obediência também aos sogros. "É comum ver um homem se casando com gadji [não cigana], mas quando são mulheres que se relacionam com não ciganos, a coisa muda e tudo fica mais difícil," disse. Entretanto, nos dias de hoje, Elisa afirma que muitas mulheres "já estão no comando de famílias ciganas". Muitas delas conseguiram seguir na universidade e,  inclusive, no exercício de profissões diversas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

CARTA DAS BENZEDEIRAS - Encontro do Paraná


CARTA DAS BENZEDEIRAS

Nós, benzedeiras, benzedores, curandeiras, curadores, costureiras e costureiros de rendidura e/ou machucadura, rezadeiras e rezadores, remedieiras e remedieiros, massagistas tradicionais, parteiras e aprendizes de benzedura da região, representados neste Encontro por detentores de ofícios tradicionais de cura dos municípios de Fernandes Pinheiro, Inácio Martins, Irati, Rebouças, Turvo, São João do Triunfo e São Mateus do Sul, reafirmamos nossas práticas e conhecimentos tradicionais na participação do 2º. Encontro das Benzedeiras do Centro Sul do Paraná, nos dias 09 e 10 de novembro de 2012, realizado na Sede da Terceira Idade, no município de Rebouças, região centro sul do Estado do Paraná, com 80 participantes e também 20 convidados entre autoridades, pesquisadores e apoiadores.

Esse encontro é parte de nosso processo organizativo como detentores de ofícios tradicionais de cura organizados no Movimento das Aprendizes da Sabedoria (MASA), desde os anos de 2007, tendo como principal desafio o reconhecimento público e valorização das práticas tradicionais desenvolvidas por nós nesta região.

Fortalecemos neste Encontro nossas práticas e conhecimentos tradicionais e nossa existência coletiva, ressaltando-o como fruto de nossas práticas tradicionais de cura “benzimentos, curas, rezas, simpatias, orações, esfregações, puxados, banhos, costuras de rendidura, massagens” e nossas manifestações culturais que unem fé,  tradição e devoção “novenas, mesadas de anjo, danças de São Gonçalo, procissões, recomendas” que são realizadas por nós nas diversas localidades dos municípios da região centro sul do Paraná, em que  se destacam os detentores de ofícios tradicionais como sujeitos deste processo organizativo.

Em nossa caminhada temos identificado diversos conflitos e situações que nos conduziram para uma aproximação de nossas realidades, tendo realizado nos anos de 2008 à 2011 o Mapeamento Social dos Detentores de Ofícios Tradicionais de Cura nos municípios de Rebouças e São João do Triunfo, resultando na identificação de 294 detentores de ofícios tradicionais nestes municípios. Informações que no encontro compartilhamos no lançamento do Boletim Informativo do Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil “Conhecimentos Tradicionais e Mobilizações Políticas: o direito de afirmação da Identidade de Benzedeiras, municípios de Rebouças e São João do Triunfo, Paraná”.

Como resultado de nossas trocas e discussões, na defesa nossa existência coletiva, encaminhamos em nosso Encontro, os seguintes pontos:

Compromissos
Ampliar o processo de mobilização, valorização e reconhecimento dos detentores de ofícios tradicionais de cura nos municípios já organizados e também em outras regiões do estado e do Brasil.

Fortalecer nosso movimento com o desafio de motivar nossas comunidades por intermédios de encontros de troca de experiências, para que nossos conhecimentos sejam de uso das comunidades; resgatar as práticas tradicionais que manifestam nossa cultura (Romaria de São Gonçalo, Mesada de Anjo, Olhos d´Água do Monge João Maria, Festas de Santo, Novenas, Procissões); envolver as gerações mais jovens nos espaços que nos organizamos, a fim de que estes, respeitem nosso modo de vida tradicional e acolham tais conhecimentos tradicionais, assegurando o repasse da tradição.

Intensificar a luta por políticas públicas de reconhecimento das identidades coletivas das benzedeiras e de seus serviços de saúde prestados de forma gratuita e solidária à comunidade em geral.

Lutar contra todas as formas de repressão e marginalização dos conhecimentos e saberes tradicionais de cura associados ao uso sustentável da biodiversidade como estratégia de manutenção e repasse de tais conhecimentos.

Reivindicações
Realização de encontros, seminários e reuniões com médicos e funcionários do sistema público de saúde a fim de amenizar os conflitos existentes entre as práticas e conhecimentos tradicionais e o sistema formal de saúde, sendo estes espaços articulados pela Secretaria de Estado da Saúde do Estado do Paraná.

Diálogo com a Secretaria de Estado da Saúde do Estado do Paraná a fim de regulamentar o livre acesso das benzedeiras aos postos e hospitais de saúde a fim de realizar benzimentos e costuras de rendidura aos pacientes internados que solicitarem a realização das práticas tradicionais de cura de forma complementar aos seus tratamentos convencionais de saúde.
Diálogo com o poder público a fim de fortalecer o reconhecimento e a valorização de políticas públicas voltadas às demandas dos povos auto–definidos como detentores de ofícios tradicionais de cura, fortalecendo localmente e regionalmente a efetivação da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, instituída pelo Decreto Federal nº 6.040/2007, em consonância com a Constituição Federal em seus artigos 215 e 216, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também nos artigos 190 e 191 da Constituição do Estado do Paraná, somando-se a isso as Leis Municipais de Reconhecimento dos Detentores de Ofícios Tradicionais de Cura dos municípios de Rebouças/PR, inscrita sob o número 1.401/2010 regulamentada pela Decreto nº 027/2010 e São João do Triunfo/PR, 1.370/2011.

Instituição do Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná, a fim de que seja um espaço institucional de articulação e implementação de políticas públicas voltadas aos povos e comunidades tradicionais do Paraná, entre estes, os detentores de ofícios tradicionais de cura.

Efetivação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e Política Nacional das Práticas Integrativas e Complementares de Saúde no Sistema Público de Saúde, possibilitando a participação efetiva dos Detentores de Ofícios Tradicionais de Cura.

Fomento para a criação do Ponto de Cultura das Benzedeiras a nível regional a fim de valorizar e reconhecer as benzedeiras como agentes de promoção cultural, bem como, proporcionar estratégias para o processo organizativo mobilizado pelo Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA).

Realização do Encontro Nacional das Benzedeiras, possibilitando visibilidade social e a articulação entre os vários detentores de ofícios tradicionais de cura no Brasil e suas experiências organizativas e de práticas tradicionais de cura, por meio da Secretária da Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura.

Elaboração de estratégias junto aos órgãos de fiscalização e gestão ambiental para a regulamentação do livre acesso as plantas e ervas medicinais e Olhos d´Água do Monge João Maria em áreas de unidades de conservação; implementação de viveiros de ervas e plantas medicinais nas comunidades e município a fim de preservar e resgatar a biodiversidade de plantas medicinais de uso das benzedeiras; fiscalização do desmatamento desenfreado que ocasiona a extinção das plantas e ervas medicinais das matas nativas; proibição do uso de agrotóxico em áreas de plantas medicinais nativas e Olhos d´Água do Monge João Maria, locais sagrados de uso da coletividade dos detentores de ofícios tradicionais de cura.  

Desta maneira, confirmamos com nosso Encontro a força que vem das comunidades e se reforça no Movimento Aprendizes da Sabedoria, para sermos reconhecidos e alcançarmos nosso lugar de direito em todas as regiões em que estamos presentes. Sendo assim, nosso Encontro cumpriu com o objetivo de estimular nosso ânimo de continuar cuidando da vida, nossa missão Sagrada, dada por Deus e assumida por nós.

Rebouças - Paraná, 10 de novembro de 2012.

MOVIMENTO APRENDIZES DA SABEDORIA - MASA

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