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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Festival de Inverno UFMG - Mestres quilombolas, religiosos e indígenas pregam respeito à biodiversidade


Seu Badu, do quilombo Matição, entre Mãe Mona, do terreiro Roça Poço Ayokê, e 

Guilherme Nogaro, especialista em sustentabilidade ambiental.  Fotos de Bruna Brandão


“Com licença, senhor das matas!”. Este foi um dos refrões de orações e cânticos de diversas tradições que precederam caminhada realizada esta manhã na Estação Ecológica, no campus Pampulha. E dá a dimensão do respeito à biodiversidade que marcou encontro sobre sustentabilidade ambiental promovido pelo Festival de Inverno. Participaram mestres de quilombos, terreiros, comunidades indígenas e grupos de congado, sob coordenação de Pedrina Lourdes dos Santos, reinadeira e mestre da Guarda de Moçambique de Oliveira.

“São guardiões da biodiversidade e de um pensamento diferente, que preza práticas zelosas da natureza. O conhecimento acadêmico tem muito a aprender com a modéstia dos povos tradicionais, para os quais o humano está em pé de igualdade com todos os elementos da natureza”, afirmou a professora Rosangela de Tugny, pesquisadora da música indígena, que recebeu os participantes como representante da UFMG.

A lógica de síntese que rege a ciência que se ensina na universidade, de acordo com a professora da Escola de Música, não é o principal operador do pensamento dos povos indígenas, por exemplo. “Os índios têm um sistema de classificação que é qualitativo, que valoriza a especificidade e a multiplicidade. Assim como o projeto das culturas tradicionais é múltiplo, não é apenas humano, por isso elas são grandes defensores da biodiversidade”, disse Rosângela.

Silvio de Siqueira, ou seu Badu, líder do quilombo de Matição, em Jaboticatubas, elogiou a iniciativa da troca de experiências com professores e alunos da UFMG. E pregou a humildade que caracteriza o homem do campo. “Todo mundo tem que conhecer mais sobre a terra e saber que é preciso combater o agrotóxico. O povo não tem alimento sadio, e o organismo não aguenta isso, a medicina não dá conta de curar”, disse ele, que é profundo conhecedor das plantas medicinais.

Seu Badu lembrou que os quilombolas e membros de outras comunidades precisam de apoio para permanecer em suas terras. E defendeu que não existe "terra ruim", porque é dela que saem os alimentos e os remédios. “Estamos fazendo covardia com a terra, e ela cobra de nós, os agressores”, ele enfatizou.

Permanência e harmonia

O especialista em sustentabilidade ambiental Guilherme Nogaro apresentou aos participantes a permacultura (cultura da permanência), metodologia que visa ao planejamento de ecossistemas de forma integrada. Segundo ele, é preciso “reconhecer a dinâmica da vida para organizar as culturas para a harmonia produtiva”.

“As relações ecológicas devem ser baseadas na cooperação e na solidariedade que, também através da comunicação, buscam a atualização e a transformação constantes”, disse Nogaro, que defendeu que a universidade alie as ideias de vida e serviço à tríade formada por ensino, pesquisa e extensão.

Rosangela de Tugny destacou que o Festival de Inverno é evento exemplar, que mostra a disposição da UFMG de se abrir ao mundo. “Há forças na instituição que desejam dialogar com outros universos. Os estudantes estão treinando outras temporalidades, diferentes formas de concertação. Os povos tradicionais trazem uma outra etiqueta, baseada em grande capacidade de escuta”, afirmou a professora.

Depois de exposições breves e das orações de respeito à natureza, os participantes partiram para uma trilha na Estação Ecológica (foto). O objetivo era que os mestres apresentassem as plantas segundo seus conhecimentos, ao som de cantos das diversas tradições.

O Festival de Inverno da UFMG segue até o dia 26. Para mais informações, acesse o site do evento ou as redes. sociais: www.facebook.com/FestivalUFMG ewww.twitter.com/FestivalUFMG.

Fonte: UFMG

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Amazonas - Plantas Medicinais são estudadas por deficientes visuais através dos sentidos sensoriais humanos



ITACOATIARA – Qualquer pessoa portadora de algum tipo de deficiência sofre com diversos fatores que a sociedade insiste em colocá-los como correto, sobretudo com crianças e jovens que estão em plena formação física, psicológica e sociológica. O projeto ‘Alfabetização Sensorial: utilização dos sentidos na identificação das plantas medicinais aromáticas por alunos cegos’, executado na Escola Estadual João Bosco Ramos de Lima com a coordenação da professora de Libras Ieda Solange Rattes, combate o preconceito existente e mostra que todos são capazes de fazer qualquer coisa.

O projeto com o apoio dos cientistas júnior Marília Gomes, Aline Cardorso, Mayara Ferreira e os deficientes visuais Glaudson Pereira e Ricardo Martins e apoio técnico Rolene Maara, realiza pesquisas bibliográficas sobre plantas medicinais e suas composições, após isso repassam as informações para os colegas deficientes visuais através do programa Dosvox, sistema que auxilia deficientes visuais no uso de computadores através do áudio.


Cientistas-júnios-com-deficiência-visual-buscam-motivação-em-projeto

Para coordenadora do projeto Ieda Solange Rattes, o projeto ajuda os alunos a tornarem-se verdadeiros pesquisadores científicos. “Os deficientes visuais necessitam de uma atenção especial, e como professora de braile, percebi que eles tinham potencial grande para ser cientistas júnior, sobretudo com nosso projeto visto que devido as suas deficiências outros sentidos tornaram-se mais aguçados como o tato e olfato, reconhecendo determinadas plantas medicinais pelo cheiro  saberão se virar sozinhos quando estiverem enfermos”, explica.

A escola que possui uma sala de recursos para deficientes, também tem projetos com braile e libras e já teve projetos com plantas medicinais aromáticas. Ao final do projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisas do Estado do Amazonas (Fapeam), a coordenadora pretende publicar um livro em braile que fale sobre o projeto para que outros cegos possam conhecer.

Para o deficiente visual e cientista júnior Glaudson Pereira participar do projeto é apenas o começo de um sonho em fazer uma faculdade. “As pessoas acham que cego tem que ficar somente em casa, que estudar é uma perda de tempo, mas aos poucos estou dando orgulho para meus pais e amigos, pois este projeto nos ajudou a sermos útil para nossa comunidade”, afirma o estudante.

Já para o cientista júnior e também deficiente visual Ricardo Martins o projeto deu uma motivação a mais para estudar e dar o melhor de si para seus professores e colegas. “Nós temos uma ótima professora de libras e língua portuguesa também, pois eu tinha muita dificuldade com esta matéria e hoje já gosto muito, meus pais sempre me ajudam a honrar este compromisso com o projeto, às vezes não tenho dinheiro nem para o moto-táxi, mas eles sempre dão um jeito para eu vir para escola e isso me faz querer ir até o fim”, ressalta.

Além de desenvolver a sensibilidade olfativa através da identificação das plantas medicinais aromáticas, o projeto rompe muitas barreiras, como o auxílio na facilidade que os cegos têm em aprender, lutar contra o preconceito da própria família em fazer com que eles estudem e realizem sonhos e alcancem objetivos.

Fonte: Programa Ciência e Educação Amazonas

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Canal Saúde - Programa debate políticas públicas para fitoterápicos

Sala de convidados questiona se medicina moderna pode se beneficiar de conhecimentos tradicionais como os remédios fitoterápicos


Em todo o mundo, mesmo com a medicina moderna, grande parte da população dos países em desenvolvimento depende da medicina tradicional e seus conhecimentos sobre plantas medicinais, como reconhece a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas será que a medicina moderna também pode se beneficiar de conhecimentos tradicionais como os remédios fitoterápicos, feitos exclusivamente de plantas medicinais.
Para debater o assunto, o programa Sala de Convidados promoverá na próxima terça-feira (1º), às 11h, uma discussão ao vivo sobre as políticas públicas para fitoterápicos e o desenvolvimento da ciência e tecnologia nesta área. Produção do Canal Saúde, o programa pode ser visto na internet.
O programa é idealizado para a participação do espectador. Perguntas e comentários podem ser enviados a qualquer momento durante o programa, para isso, utilize o chat no site do Canal Saúde ou ligue, gratuitamente, para 0800 701 8122.  Se preferir, antecipe suas perguntas através do e-mail canal@fiocruz.br.
Fonte: Fiocruz

quinta-feira, 22 de maio de 2014

5ª Caminhada Farmácia Viva em Movimento!




O Instituto Kairós, em parceria com a Prefeitura Municipal de Nova Lima, realiza a 5º Caminhada Farmácia Viva em Movimento! Um encontro para a troca de conhecimentos sobre plantas medicinais, com a participação de conhecedores da medicina popular e tradicional, profissionais do SUS, equipe do Instituto Kairós e Ervanário São Francisco de Assis. A quinta edição acontece no dia 27 de maio, às 14 horas, na Estrada Real em Honório Bicalho. 

Participe! Faça sua inscrição!

Envie seu nome completo, telefone de contato, CPF e RG: farmaciaviva@institutokairos.org.br

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Benzedeiros carregam em si a fé e as boas energias que passam para outras pessoas



Mário Braz, de 81 anos: no próximo dia 28, a Comunidade dos Arturos, em Contagem, na Grande BH, recebe o título de Patrimônio Imaterial de Minas Gerais


Em Minas Gerais, há um estudo para transformar o ato de benzer em bem imaterial
Luciane Evans - Saúde Plena/Jornal Estado de Minas, 13/04/2014
Sobre um banco de concreto, das 8h às 17h30, Mário Braz, de 81 anos, se senta à espera das cerca de 70 pessoas que o procuram todos os dias. Nos pés, um chinelo velho. Nas mãos, a fé e o mistério que não revela. “Tenho aqui os santos para todas as dores. Parece um molho de chaves, mas não é. É um segredo”, diz, com toda a simplicidade que lhe cabe. Seu Mário, como é conhecido, não se formou em medicina, mas sabe de cor as orações para cada mal do corpo e da alma. “Sou benzedeiro. É um dom que Deus nos dá.” Há 39 anos, ele benze quem o procura com as imagens de santo no chaveiro e a folha de arruda. Tem sabedoria de doutor. Não tem pressa. Sabe que cada palavra é divina e tem seu propósito. “Tem coisas, minha filha, que não são para os médicos. Só a fé pode curar.” Sobre o sucesso que faz, sorri e diz que a busca pela benzeção está voltando ao que já foi um dia. “Nunca vai acabar”, decreta.

Seu Mário tem razão. E está nas mãos dele o primeiro passo para a preservação da tradição em Minas Gerais. No próximo dia 28, a Comunidade dos Arturos, em Contagem, na Grande BH, recebe o título de Patrimônio Imaterial de Minas Gerais, registro dado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). Seu Mário mora lá desde os 10 anos e é o benzedeiro mais conhecido da região, atraindo até mesmo gente de outros lugares do Brasil. Só não benze aos sábados e domingos, e nem à noite. “Se aparecer alguém, até benzo. Não se pode recusar. Mas não gosto. Fins de semana Deus fez para o descanso. Benzer à noite não é bom, não é uma linha boa. Pode ser perigoso”, alerta.

A comunidade dos Arturos, onde vive seu Mário, será a primeira a receber o título do Iepha. Até hoje, como bem imaterial, o instituto tem na lista o modo de fazer queijo da cidade do Serro, na Região Central, e a festa de Nossa Senhora da Chapada do Norte dos Homens de Preto, no Jequitinhonha. “De lugar, esse será o primeiro. Trata-se de um reconhecimento da expressão da comunidade como um todo. Lá, há culinária, Festa do Rosário e a benzeção, que é um ponto forte deles”, comenta o gerente de Patrimônio Imaterial do Iepha/MG, Luís Gustavo Molinaria Mundim. 

Mas isso é só o começo. Desde o ano passado, o instituto está debruçado sobre o projeto de transformar o ato de benzer em Minas em patrimônio imaterial. “Fazíamos um inventário de proteção do Rio São Francisco quando identificamos várias benzedeiras e várias formas de benzer. Percebemos a necessidade de algo maior para o ofício”, diz Luís Gustavo. 

A intenção, segundo ele, é fazer um mapeamento para conhecer quantas são as pessoas que praticam a benzeção, quem são elas e os elementos invocados para a prática. “Queremos conhecer também como isso está sendo passado. O registro é baseado em um patrimônio vivo, ou seja, o benzer tem que estar ocorrendo. Com o registro, vamos identificar quais os principais problemas que essas pessoas enfrentam, e manter projetos para que a prática se mantenha.” 

Desafio. Essa curiosidade que está nas mãos do Iepha é também a de muitos. Para se ter uma ideia, no dia 16 de março o Bem Viver publicou matéria sobre a inveja e suas consequências. Entre um dos entrevistados, a benzedeira Maria José Lima comentou sobre a proteção por meio da benzeção. Logo após a reportagem ser publicada, dezenas de pessoas ligaram para a redação em busca do contato da benzedeira e muitos se queixaram de não achar mais o ofício em Belo Horizonte. Houve quem apostou que ele tinha chegado ao fim. Um dos leitores sugeriu: “O Estado de Minas podia procurar esses anjos para nós”.

O Bem Viver  topou o desafio e foi atrás das pessoas das mãos abençoadas. Elas não desapareceram. Fácil, realmente não é. Porém, os benzedeiros e benzedeiras estão vivos e sendo procurados cada vez mais. “Eles têm algo incrível. São reconhecidos nas comunidades onde vivem, acolhem quem os procura e não cobram pelo que fazem. São pessoas boas, a maioria é de baixa renda, e não quer status nem fama. É algo milenar. Há o efeito da contemporaneidade, claro. Mas essas pessoas não vão desaparecer”, aponta o filósofo e professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Stephen Simim. Estudioso do assunto, ele dá o caminho para o reencontro com essa bênção: “Se você treinar o seu olhar, vai redescobrir essas mulheres e homens que têm o dom de benzer”.

É preciso ter fé para buscar a cura, dizem especialistas sobre os benzedeiros


Crucifixo, plantas, imagens de santos e orações inventadas por quem benze são usados no ritual


Aos 91 anos, Dona Aurora Ferreira dos Santos cria as próprias orações. Ela é procurada por dezenas de pessoas interessadas em sua bênção


Quebranto, cobreiro, mau-olhado, espinhela caída, vento-virado, sentido… Esses nomes, longe do universo científico, fazem parte de um mundo mágico, povoado de rezas, crenças, simpatias e benzeções. São diagnósticos dos benzedeiros em Minas Gerais. São ditos por eles, sem enganos. E para cada um desses males, físicos ou espirituais, há orações e formas de benzer. Há quem use crucifixo, plantas, imagens de santos e até a água para o rito. A prática, em pleno século 21, não mudou muito, mas vem sendo adaptada. E hoje há até quem benza por telefone. Mas será que os rituais têm mesmo poder de cura? Para quem tem nas mãos e no olhar o dom, a resposta é uma só: é preciso ter fé.

Há 12 anos, o filósofo Stephen Simim, professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), fez uma dissertação de mestrado sobre as benzedeiras no estado e, desde então, se interessa pelo assunto. “Muitas são analfabetas, vivem em casas muito simples. A maioria é de mulheres. Acredito que isso está ligado à relação do feminino com a natureza. Lembro-me de uma dizer que da terra vem a doença e da terra vem a cura.” Diante de tudo que viu e ouviu, ele não duvida da cura e lembra-se de casos curiosos. “Todas as identificações de vento-virado, espinhela caída, mau-olhado e outros problemas estão associadas a algum mal. Diante do rito, percebi a mudança no estado da criança. Pude acompanhar de perto: as pessoas chegavam de uma forma e saíam de outra”, comenta. 

Ele acredita que nesse encontro ocorra algo importante, que pode ser um milagre ou não. “Às vezes, nada mais é que a dificuldade de alguém que não conseguia um lugar para ser acolhido. As benzedeiras, antes de tudo, acolhem. Elas conversam, ouvem, tocam e interagem com o problema de quem as procura. Vi pessoas saindo bem diferentes do que entraram e aquelas que, ao fim de um ciclo de benzeções, mudavam. Não tenho uma definição para isso, mas acredito que a prática traga algo novo, senão, não estaria até hoje”, defende. 

O segredo nada mais é que a fé, conforme resume Maria da Conceição de Souza, de 61 anos. Benzedeira no Bairro Nazaré, na Região Nordeste de Belo Horizonte, ela conta que aprendeu o ofício com uma senhora que benzia os filhos de sua patroa. Com o conhecimento adquirido, optou por benzer somente crianças, pois os “adultos chegam muito carregados”. Para ela, a benzeção é o caminho para aquilo que a medicina não cura. “Mas as mães têm que ter fé, senão, os meninos não melhoram.” Quando o Bem Viver esteve em sua casa, Michele Avelino, de 24 anos, já a aguardava. “Quando pequena cheguei aqui pois estava há dois dias sem comer. Quando ela me benzeu, comi até arroz com feijão. Hoje, trago o meu filho Lucas, de 1 ano.”

Quando chegou Miguel, de 3 anos, Maria deu o diagnóstico. “Está sentido.” Segundo ela, isso acontece quando a criança está indisposta, sem comer e triste, o que pode ser mau-olhado. “No caso de vento-virado, ela tem um dos braços ou uma das pernas mais curta que a outra. Isso pode ser um susto que tomou. Nesses casos, é bom benzer três vezes. Se a mãe está nervosa ou teve briga em casa isso reflete na criança. Quando os pequenos forem elogiados, é bom dizer ‘Benza Deus’, para protegê-los”, aconselha. Maria benze com folhas de arruda, manjericão, reza Pai Nosso, Ave Maria e Salve Rainha.

Ela não acredita no fim da prática, mas confessa não ter alguém para quem passar o seu conhecimento, já que seus filhos não querem tamanha responsabilidade. Segundo Stephen, há duas formas de eternizar a prática. A primeira delas é a transmissão por gerações. “A outra é a experiência mística. A pessoa não aprendeu com ninguém e passou a benzer por meio de uma vivência.” Ele lembra outros elementos que envolvem a prática, como o uso das plantas medicinais.


ORAÇÕES Outro destaque do pesquisador são as orações. Muitas benzedeiras criam suas rezas, que ninguém sabe de onde vieram, nem elas (veja na página 4). É o caso de Aurora Ferreira dos Santos, de 91 anos. Famosa em Belo Horizonte, Aurora cria suas orações, que já salvaram muitos. Analfabeta, ela diz que benzer é retirar o mal das pessoas e uma das dicas que dá a todos é relacionada a esses males abstratos. Ela diz para ficarmos atentos àquelas mariposas que entram dentro de nossas casas. “Tem que retirar e mandar para longe. A bruxa é sinal de que há alguém não está lhe desejando o bem”, ensina.
 
Mesmo com a idade avançada, todos os dias ela é procurada por dezenas de pessoas, inclusive por quem mora fora do país. E, nesses casos, ela usa o telefone para benzer. Na sua casa, no Bairro Floramar, na Região Norte da capital, já foram de pedreiros a juízes em busca de suas mãos e olhos abençoados. Ela tem no seu altar imagens de Santa Bárbara, Cosme Damião e São Sebastião. Como bem observou Stephen, é comum não se benzer à noite, somente na luz do dia. Aurora tem esse hábito e outros também. “Uma vez, na Sexta-Feira da Paixão, uma mulher me procurou. Quando a benzi, saíram dela três espíritos. Nunca mais benzi nesta data”, recorda. Toda noite, depois de benzer as dezenas de pessoas, ela pega um terço e reza por cada um que lhe procurou. Nunca cobrou pelo serviço e diz que a recompensa está na saúde que Deus lhe dá. “Enquanto Ele me der licença, vou trabalhar”, afirma.

Não há uma resposta científica que possa explicar o que é ser benzedeiro


Para muitos, uma força superior rege as energias da pessoa para o bem


Espírita, dona Nerci da Conceição é benzedeira há 30 anos e usa em suas benzeções ramos verdes, folhas de arruda e de guiné ao lado de um crucifixo

Uma sabedoria popular que ninguém sabe de onde veio nem para onde vai. Seria um dom ou uma experiência de vida? Não há respostas exatas. O certo é que, segundo os benzedeiros, para benzer não é preciso muito: basta ter o coração aberto e fazer o bem. Muitos, hoje em dia, não são católicos. Adaptaram suas crenças à prática. Assim, quem chega à casa desses anjos, independentemente da religião, percebe que a grande maioria não está em busca de holofotes e benze por acreditar em uma força superior. Dinheiro? “Dá-se de graça o que de graça recebeu”, ensina Nerci da Conceição, de 68 anos, benzedeira na capital há 30 anos. Para a geração que chega, eles aconselham a ter boa vontade, o que pode significar largar um almoço para atender, sem pressa ou preguiça, alguém que precisa ser benzido. 

Espírita, Nerci conta que seu dom veio da necessidade. Ela não encontrava benzedeiras na cidade para seus filhos e, assim, começou a benzer. No Bairro Aparecida, na Região Noroeste, ela é bem conhecida e usa a natureza em suas rezas. Há em sua casa ramos verdes, arruda e guiné – plantas que usa para benzer junto do crucifixo. “Antes do rito, gosto de ouvir as pessoas. Tenho até a oração para as doenças desconhecidas. Receito o uso de plantas também. Em casos de problemas de pele, é bom usar pomada recomendada pelo médico e um pouco de enxofre”, diz. Ela benze até mesmo os animais e acredita que há pessoas que atraem o mal, “por isso, benzer é tão importante. Afasta os maus espíritos e abre caminhos”. 

Na linha da umbanda kardecista, a benzedeira Maria Aparecida da Silva, de 64, conta que benze desde os 12 anos e não sabe como aprendeu. Um dos dias mais marcantes para ela foi quando chegou em sua casa uma moça pedindo benzeção. “Não sabia o que tinha, nunca a tinha visto na vida. Veio o meu guia espiritual, que às vezes fala comigo quando preciso, e me pediu para benzê-la na luz. Acendi uma vela”, conta. 

Míriam se diz médium e, durante a entrevista, surpreendeu a reportagem muitas vezes. Segundo ela, é bom benzer com água, para limpar as coisas ruins. “Cada pessoa tem um tipo de vibração”, comenta. Por acreditar nisso, ela pede cuidado com os abraços. “Um abraço mal dado é pior do que uma facada. Quando alguém lhe abraçar, feche os olhos. Aí você barra a energia do outro. Será um espelho para quem abraça você. Existe pior reflexo que o espelho?”, questiona.

Ela faz um alerta também para esse período da quaresma. “É uma época em que espíritos vagam muito facilmente. É preciso cuidado. A benzeção protege você”, comenta. Porém, mesmo defendendo essa proteção, Míriam diz que não se pode ser benzido por qualquer um. “Tenho medo de passar meu conhecimento para alguém. Pode-se benzer tanto para o bem quanto para o mal. O coração dos outros é terra que ninguém morre. Por isso, é preciso cuidado”, avisa. Quando a reportagem pediu a Míriam que fosse fotografada para a matéria, ela informou que as entidades que lhe acompanham não permitiram e pediram a ela que não falasse mais. Respeitamos. 

De acordo com o filósofo Stephen Simim, as adaptações da forma de benzer são muitas, e uma delas está na assimilação de outros elementos e religiões. “Hoje, há no meio evangélico, por exemplo, aquela pessoa que ora pelas outras. É uma irmã de fé muito forte”, exemplifica, lembrando de práticas atuais esotéricas, que muito têm a ver com as benzeções. “Muitas coisas estão surgindo, mas ninguém está inventando. Por isso, não tenho medo de que a prática se perca. Pode haver uma ressignificância.” 

Senso de responsabilidade

Medo, Mário Braz, de 81 anos, também não tem. Há 39 benzendo, ele diz que aprendeu a prática com a irmã benzedeira. “Lembro que zombava tanto dela, e ela um dia me pediu para benzê-la, pois estava com dor de cabeça. Ela sarou na hora e  viu que tinha o dom. Não parei mais”, recorda. Com tanto sucesso, recebendo cerca de 70 pessoas por dia, ele conta que há dias em que está almoçando e chega uma criança para benzer. “Aí tenho que largar o prato. Por isso, digo que não se pode ter preguiça nem má vontade.”

Mário benze as doenças e também os documentos. Uma das perguntas que faz para quem pede sua benzeção é se a pessoa está desempregada e pede a carteira de motorista. Então, faz suas rezas. Até moça solteira ganha uma oração para se  casar. E não é à toa que as pessoas o procuram todos os dias na comunidade dos Arturos, em Contagem. “Minha mulher está benzendo. Faz escondido de mim, por preconceito”, diverte-se Mário, que diz ter ensinado à mulher a “costurar” coluna. “Quando se está com uma dor na coluna, é bom pegar uma agulha e costurar um novelo. Sara que é uma beleza, só não pode esquecer a oração”, diz.


Antes de começar a benzeção do dia, das 8h às 17h30, Mário se protege. “É para deixar meu corpo fechado. Funciona. Tenho uma saúde de ferro”, afirma. Quem o conhece diz que foram poucas as vezes em que ele deixou de benzer, como no dia da morte da irmã, em que ficou três dias de luto. Como muitas pessoas vão à sua procura, Mário conta que até os médicos da região já o recomendam. “Por isso, digo que as pessoas estão voltando a nos procurar. Antigamente, qualquer coisa que acontecia, ia-se em busca dos doutores. Hoje, eles que estão mandando seus pacientes para as mãos e olhos dos benzedeiros”, diverte-se.

ORAÇÕES

Oração de Santa Catarina


“Minha Santa Catarina, digna que foste, aquela senhora que passou pela porta de Abraão. De dia e de noite, ache seus inimigos tão bravos para mim como leões. Com suas palavras abrandai o coração de meus inimigos. Se tiverem faca para mim há de enrolar como um novelo de linha, será cortada pela corrente de Santa Catarina. Se tiverem arma de fogo para mim será cortada pela corrente de Santa Catarina. Ninguém me enxergará, eu viro em pau e empedra na frente dos meus inimigos. Meus inimigos nunca vão me enxergar para fazeromauamim, está acorrentado pela corrente de Santa Catarina. Há de correr quando me virem, como o judeu correu da cruz. Assim seja. Amém, Jesus.”
Oração criada pela benzedeira Aurora Ferreira dos Santos, de 91 anos. 

“Cruz de Cristo na minha testa, palavra divina na minha boca, hóstia consagrada na minha garganta, menino de Jesus no
meu peito. Aleluia, Aleluia, Aleluia. Custódia me proteja”
Oração que Mário Braz faz antes de benzer. É proteção contra os males, e Custódia, que ele cita, é uma antiga benzedeira da região.




segunda-feira, 7 de abril de 2014

Saúde Mental em contexto indígena – Convivendo com as diferenças culturais


Marcelo Abdala e Cacique Raoni, durante a V Conferência Nacional Saúde indígena em Brasília/DF - dezembro 2013 - Foto: Acervo Pessoal


Por  
Acadêmico de Jornalismo do CEULP/ULBRA



A população indígena no Brasil sempre lutou para preservar cultura, crenças e valores. O uso de plantas das florestas e até mesmo “benzimentos” são conhecimentos ancestrais, que os povos indígenas adotaram para curar doenças e são curiosidades até mesmo para a ciência secular.
A saúde mental em contexto indígena é um desafio para o Sistema de Saúde Pública no Brasil (SUS). Mesmo com uma forte influência espiritual, os povos indígenas apresentam carências de atendimento preventivo e humanizado no tratamento de casos de uso e abuso de substâncias e até mesmo suicídios.
Nos dias 4 a 7 de setembro de 2014, na cidade de Manaus(AM), o IV Congresso Brasileiro de Saúde Mental (ABRASME) - "Navegando pelos rios da Saúde Mental da Amazônia: Diversidades culturais, saberes e fazeres do Brasil” - promoverá debates, para futuras ações concretas, com a intenção de potencializar os estudos e estratégias em saúde mental e a valorização das formas tradicionais de atenção à saúde presentes na diversidade cultural.
Para entender um pouco mais a problemática que vem afetando na saúde em contexto indígena, o (En)Cena entrevistou o psicólogo Marcelo Pimentel Abdala Costa, 37, que trabalha com o Programa de Atenção em Saúde Mental no Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro(AM).
Psicólogo, poeta e autor de produções científicas - destaque para o capítulo de um livro no âmbito da Terapia Comunitária Integrativa - Marcelo Abdala acumula conhecimento e vivências nas culturas indígenas. O psicólogo lamenta a falta de conhecimento por parte da sociedade sobre as formas de viver indígenas, relata casos de cura por plantas medicinais, ainda conta detalhes de crenças espirituais e comenta sobre os recentes casos de suicídio em aldeias na Ilha do Bananal (TO).

(En)Cena - O IV Congresso Brasileiro de Saúde Mental (ABRASME) tem como  tema "Navegando pelos rios da Saúde Mental da Amazônia: Diversidades culturais, saberes e fazeres do Brasil”. O que o senhor espera de conquistas pelo evento?
Marcelo Abdala - Como profissional do campo da saúde mental e da saúde indígena, espero que este Congresso possa oferecer amplo debate sobre temas como atenção à pessoa indígena e, sobretudo, problematizar categorias médico-psiquiátricas como relativas e culturais, considerando os modelos de origem da humanidade, visão de mundo, processo saúde/doença e formas tradicionais de atenção à saúde presentes em diferentes culturas.

(En)Cena  – Quando e o que motivou o senhor a trabalhar saúde mental com indígenas?
Marcelo Abdala - O contato que tive com os povos indígenas teve início no Estado do Ceará, a partir de 2009, quando tive a oportunidade de trabalhar no Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária (Projeto 4 Varas) e em Movimento de Saúde Mental Comunitária. Considerando a minha história de vida, a partir do trabalho voluntário em Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em diferentes Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) até em um Projeto de Formação de Lideranças Indígenas... O que me motivou a trabalhar com o tema da saúde mental em contexto indígena foram os olhares diferentes sobre o mundo e formas tradicionais de cuidado que não as que estamos acostumados. Para mim, benzimento, 'pajelança', uso de plantas, ervas e raízes e todo um conjunto de instrumentos ritualísticos para a atenção e o  cuidado  constituem, também, formas legítimas de se cuidar da saúde e por isso devem ser integradas, reconhecidas e valorizadas.

(En)Cena – Como é a aceitação e conhecimento por parte dos indígenas com as equipes de saúde mental? Existe alguma dificuldade para aceitar os programas de saúde pública?
Marcelo Abdala - Quando cheguei no Rio Negro (AM), havia desconhecimento do que era o trabalho do profissional de psicologia e das ações referentes ao Programa de Saúde Mental. Todavia, ao contextualizarmos a prática e sua diferença em relação às atividades de outros profissionais, ela tem sido aceita, sobretudo porque escuta os olhares, respeita as diferentes culturas e reconhece o processo de saúde e doença de cada povo.

Reunião de Conselho distrital de saúde indígena na aldeia
Foto: Acervo Pessoal

(En)Cena – Devido à distância das aldeias indígenas dos centros urbanos, quais são as estratégias das equipes de saúde da família em atendimento a saúde mental indígena?
Marcelo Abdala - O que especifica a Saúde Indígena  - e a diferencia de outra estratégia - é exatamente chegar até a pessoa indígena em lugares de muito difícil acesso. As equipes se deslocam de 'voadeira', avião, 'rabeta' e algumas vezes caminham na mata para acessar outros povos que residem no interior da floresta. Em relação ao que chamo de 'Saúde Mental em Contexto Indígena', as diferentes equipes procuram realizar rodas de conversa, com orientação do profissional de psicologia, notificar situações de violência, suicídio e tentativa de suicídio e acompanhar usuários de medicação psicotrópica. Todavia, a estratégia que mais se aproxima das diferentes complexidades é a compreensão de diferentes práticas indígenas e o trabalho conjunto com os cuidadores tradicionais.

(En)Cena – Há uma prática de saúde mental especificamente indígena em sua área de trabalho, ou podemos pensar o conceito de saúde mental para os mesmos parâmetros da população em geral?
Marcelo Abdala - Não podemos pensar em 'saúde mental em contexto indígena' tal como pensamos em saúde mental para a população em geral. Os modelos e representações de mundo, de humanidade, pessoa, animal, espírito, como disse, são diferentes para cada povo e sobretudo para a população em geral, que se baseia, por sua vez, em um modelo biomédico, considerando a sociedade capitalista e tardo moderna. O que consideramos como prática de 'saúde mental em contexto indígena', constitui tudo aquilo que , segundo as tradições, crenças e valores indígenas, promovem 'integração' e é estruturante para o povo. Por exemplo: poderíamos considerar como uma prática de saúde mental em contexto indígena um ritual de passagem, uma prática 'xamânica', o benzimento da criança que lhe confere um nome e proteção durante à vida, ou mesmo, uma associação de mulheres indígenas que produz artesanatos coletivamente.

(En)Cena – Como são percebidas questões altamente complexas como o sexo e adolescência na sua área de atuação?
Marcelo Abdala - Os jovens indígenas iniciam sua vida sexual “cedo”, de acordo com  nossos parâmetros e costumes sociais. Para eles está no momento certo. É preciso entender que os povos indígenas possuem modos de organização social diferentes da sociedade moderna. Sendo assim, a iniciação à vida sexual acontece mais cedo do que acontece, talvez, hoje, com a sociedade envolvente. Todavia, a cultura dá as normas e sentido (referências),  a partir dos ritos de passagem, que a personagem mulher deve concretizar. Muito diferente da sociedade tardo moderna que erotiza a infância com a moda e as propagandas. Na cidade, é um problema, porque tem outro sentido. Na aldeia, tem resguardo, reclusão, dieta alimentar e rito de passagem. A questão é simbólica. Adquire sentido. Não tem para os indígenas o mesmo sentido que tem para a sociedade não indígena. Essa é a questão.

(En)Cena – A Ilha do Bananal, no estado do Tocantins - considerada a maior ilha fluvial do mundo - tem características de povoamento indígena, e nos últimos anos foram registrados casos sucessivos de suicídio indígena, causando preocupação em certa parte da sociedade que tomou conhecimento do assunto. Diante disso, o senhor tem conhecimento desses relatos, e como seria o diagnóstico da situação e as primeiras estratégias de ação da saúde pública?   
Marcelo Abdala - A questão do suicídio indígena, assim como a 'alcoolização' constituem problema grave entre a população indígena na contemporaneidade. E isto tem a ver como a sociedade tardo moderna se (des)estrutura hoje. Isso tem a ver com a RELAÇÃO entre o 'branco' e o indígena. No meu ponto de vista, chega a ser um paradoxo, a causa de “preocupação”, se pensarmos como a sociedade não indígena se vê, em relação à violência, ao consumo de álcool, à personagem adolescente, idoso, negro, indígena... Basta refletirmos sobre o que a sociedade pensa sobre as terras indígenas e modos de vida tradicionais. Isso, certamente, influencia o modo de vida de diferentes povos, inclusive o indígena. A sociedade em que vivemos é uma sociedade perversa, capitalista, individualista, canibal. O diferente, para eles – indígenas - não são eles mesmos. Somos nós, estrangeiros... O que o Estado realiza para dar conta de um mal que ele produziu foi criar, provavelmente, um sistema (Lei Arouca) que prevê atenção diferenciada aos povos indígenas. Ações concretas se definem em potencializar a cultura, crenças e valores que a história negou, e reforçar o que é positivo e que produz 'saúde', claro, a partir do ponto de vista do outro (indígena).

(En)Cena – Qual a relação entre espiritualidade e saúde mental indígena? 
Marcelo Abdala - O conceito que construímos para 'espiritualidade' também é outro para os povos indígenas. É por isso que não uso o termo  'saúde mental indígena' e sim 'saúde mental em contexto indígena'. Entretanto, ainda buscamos um termo que se aproxime das diferentes realidades culturais. Quero dizer, que não há essa conotação em nenhuma cosmologia indígena. Todavia, o 'benzimento', a 'pajelança', o 'xamanismo', o uso de substâncias psicoativas utilizadas pelos pajés, os espíritos, por promover saúde e tratar de doenças, tradicionais ou não, constituem, para nós,  práticas de 'saúde mental em contexto indígena' e que portanto, devem ser valorizadas e reconhecidas, também como práticas de sua espiritualidade. Para os indígenas, os espíritos estão nos animais, nas plantas, na floresta. Para eles,  a relação com os espíritos, é que vai determinar a possibilidade de 'cura' das doenças. A doença, provavelmente não existe no corpo, é causada por um espírito,  por um feitiço, por um 'estrago'. E a saúde também seguirá por aí.

(En)Cena – Sua vivência com terapia comunitária chegou além da técnica e da prática, o senhor usa dos artifícios da arte para expor a saúde mental e suas complexidades. No seu poema “A Terapia do Cotidiano”, o que o senhor espera transmitir para o leitor?
Marcelo Abdala - Antes de tudo, agradeço a leitura do poema! Preciso dizer que este poema está relacionado, precisamente, à metodologia da Terapia Comunitária enquanto lugar de encontro de pessoas, de humanidades. Falar das coisas da vida junto com os 'outros' constitui o que o título do poema nomeia: 'A Terapia do Cotidiano”. Todavia, se pudéssemos transpor o motivo do poema para o tema da entrevista, poderia dizer que precisamos conviver com a diferença, conhecer os contextos, vivenciar a alteridade, reconhecer pontos de vista diferentes. No contexto indígena, precisamos vivenciar a relação, fazer “(...) o cotidiano com eles”, comer sua comida, tomar sua bebida, nadar no rio e ouvir suas histórias. É isso.

Reunião de responsáveis técnicos do Programa de Saúde Mental dos distritos sanitários especiais indígenas do Brasil – em Brasília - Foto: Acervo Pessoal

(En)Cena - Qual relato de tratamento da saúde mental indígena que o faz tornar inesquecível em toda a sua experiência?
Marcelo Abdala - Bom, considerando o uso de plantas, ou seja, a medicina tradicional como uma prática de saúde mental em contexto indígena, relato aqui a que ouvi esta semana de um enfermeiro. Trazia uma criança de dois meses de vida, quase sem vida. Faltava-lhe o sopro. Seu coração batia cada vez mais devagar. Ao pararem em outra aldeia, rapidamente uma senhora pegou uma folha e tirando a seiva dela, com uma seringa, deu para a criança beber. Espalhou um pouco no peito e no nariz. Em menos de 30 minutos a criança já dava sinais de vida que antes perdia. Em outra ocasião estávamos em uma aldeia realizando um Projeto de Saúde Mental para as populações indígenas. Numa noite, todos se reuniram em volta do fogo, velhos, crianças, mulheres, para relembrar as histórias, tomar o Caapi (conhecido popularmente como Ayahuasca). As mulheres cantavam as 'lamentações' em suas línguas, falando do amor de uma indígena por um 'branco'. Encorajavam, seus filhos, a beberem o Caapi, por se tratar de bebida de conhecimento. O mais velho, benzia o cigarro e contava as histórias sobre a origem da humanidade, do mundo, das doenças, da vida...

(En)Cena – Na sua opinião, qual a perspectiva do futuro da saúde mental indígena?
Marcelo Abdala - Atualmente, o tema da 'saúde mental em contexto indígena' tem sido discutido amplamente em Conselhos Regionais de Psicologia, em encontros regionais e agora em um Congresso Brasileiro de Saúde Mental, não por acaso, mas no Norte do País. Espero que a partir daqui, possamos ampliar nossa visão de mundos e agregar outras práticas não convencionais de cuidado e atenção à saúde. Para isso, precisamos compreender, nós todos, que terra, planta, rio e peixe, maloca, fumaça e espírito, também é saúde mental!        

“A Terapia do Cotidiano”
Farei meu cotidiano com eles,
Nossa terapia comunitária.
Se não houver cadeiras,
Usaremos tijolos.
Se não houver salas,
Sentaremos à beira do riacho,
Debaixo de uma mangueira...
Trataremos apenas do possível, sem segredos.
Falaremos de coisas simples,
Do nosso dia-a-dia.
A noite mal dormida,
Um amor que partiu,
Um sonho que não se realizou...
Cantaremos juntos, nossas cantigas,
Aquelas que ouvimos desde criança,
Ou aquelas que encantam os nossos corações
E embalam nossa carência afetiva...
Vamos celebrar a vida,
Cantando e batendo palmas...
Pois é assim que se celebra,
Com alegria e felicidade, ritmo e poesia...
Autor: Marcelo Pimentel Abdala Costa


Serviço:
Conheça a ABRASME e o IV Congresso Brasileiro de Saúde Mental, acesse o link: http://www.congresso2014.abrasme.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=715

quinta-feira, 27 de março de 2014

Reza, remédio e simpatia - artigo de frei Francisco van der Poel (Frei Chico)


Na medicina popular, a cura acontece através de um ritual. A benzedeira, o raizeiro, o ogã das plantas (cultos afro) e o pajé (culturas indígenas) procuram curar a pessoa como um todo e não curar só o corpo de um doente. Neste processo, vida e religião se mostram inseparáveis.

Os curadores mencionados sabem perfeitamente que o tripé de remédios, rezas e simpatias reúne elementos distintos que, sem contradição entre si, combatem a doença e suas causas, segundo as culturas representadas.

Semelhante ao tripé da cura, o povo usa (1) arma, (2) simpatia e (3)reza para defender-se dos inimigos. O agricultor usa (1) a técnica (boa semente, época certa, cova da fundura certa), (2) lança mão de simpatias e (3) pede as bênçãos de Deus e bom tempo. Quem quer casar, (1) tem amor, (2) planta a faca na bananeira e (3) rezam a Santo Antônio, São Gonçalo ou São João pra ajudar. Em todos estes momentos, vida e religião permanecem integradas.

A cultura popular é uma realidade dinâmica e não pode ser entendida apenas como uma prática tradicional, fixada no passado. Em benefício do doente, o curador popular procura ser coerente quando integra valores novos.

A medicina oficial e a popular são diferentes, desde o lugar do tratamento, os nomes dados aos membros do corpo, especialmente a interpretação da doença e, consequentemente, o processo de cura. Enquanto o povo usa ‘meizinha’ e o médico dá ‘remédio’, uma mulher do povo disse no consultório: Vamos ver, seu doutor, se sua meizinha é remédio p’ra minhas macacôa.[1]  

A medicina popular conhece grande variedade de remédios. Além das plantas medicinais, utiliza banha de vários animais, gema de ovo, óleo de tanajura, pedra do bucho, creolina, leite materno, terra, riscado de cinza, picumã e mais uma infinidade de coisas. Abre-se um grande campo para pesquisas. No entanto, rezas, os remédios e, especialmente, as simpatias da medicina popular dificilmente são tolerados por padres, médicos ou psicólogos. Nesse angu de caroço, é bom observar que, quando os serviços oficiais de saúde funcionam bem, eles enriquecem e transformam as práticas e saberes medicinais populares, e vice-versa.

Como a religião e a cura dos doentes funcionam juntos na cultura popular?
Um remédio, que resolve problemas graves, é chamado um "santo remédio". Diz o povo: Deus querendo, água do pote é remédio. Em Manhuaçu (MG, 2000), R.H. de Barros, ao tomar algum medicamento, rezou: Em louvor das três pessoas da Santíssima Trindade, e as cinco chagas do Nosso Senhor Jesus Cristo, em ação de graças. Muitas benzedeiras, após a oração, aconselham ao doente o uso de plantas medicinais. Várias rezas mencionam remédios. Segundo as bênçãos de curar cobreiro, fogo selvagem e queimadura, Jesus ensina a curar com água da fonte e raminho do monte. Na oração contra impingem, Nossa Senhora ensina a curar com guspe da boca e cinza do lar, com os poder de Deus e da Virgem Maria. Da mesma forma, a oração contra engasgo vem acompanhada de um murro nas costas ou uma colher de farinha de mandioca. Sem obter alívio com os remédios do médico, a rezadeira L.T. Ramalho disse: Rezei, pedi a Deus e Nossa Senhora para me dar um tino para saber o que ia fazer para não tomar esses comprimidos. Achei a alfazema e pus no garrafão (de pinga). Tomo um pouquinho com farinha de milho. (Araçuaí MG, 1980) Observamos que muitas plantas medicinais têm nomes religiosos: capim-santo, pau-santo, cardo-santo, fava-de-santo-inácio, erva-de-nossa-senhora, erva-de-são-joão, melão-de-são-caetano, erva-de-são-lourenço, raiz-do-espírito-santo. Também é muito interessante o costume de plantar na sexta-feira santa o fumo e o alho que servirão de remédio. O gesto popular ensina: Jesus, morreu na cruz não só para nos salvar dos pecados. Ele salva os doentes. Em tratar-se do conceito de “salvação”, a religião do povo é menos moralista que a religiosidade de muitos padres.

As simpatias constituem um assunto delicado que merece uma atenção especial:

Na lingua grega, a palavra ‘simpatia’ significa ‘sentir juntos o mesmo’. Disso vem a definição: “Relacionamento espontâneo e feliz entre pessoas, sem explicação do porquê.” Por isso, surgem expressões como: Seu santo bateu com o meu. O oposto se dá quando os anjos ou as sortes não combinam.

Outra definição de ‘simpatia’ é:
“Ação de teor não racional executada para curar doenças e consertar todo tipo de males. A simpatia é de larga aplicação no combate a doenças e problemas de difícil solução.” No Ceará, é chamada simbolia.[2] Nestas simpatias são usados: pé de coelho; chocalho de cascavel; figa; cavalo-marinho; dente de onça; sineta do altar, vários tipos de pó e muitas outras coisas. Na região amazônica, para conquistar um grande amor, a pessoa compra um ‘atrativo’.

A expressão ‘Fazer uma simpatia’ refere-se a ações benéficas sem explicação racional a favor de amores, economias, estudos, defesa do corpo, saúde de humanos e animais. Seu uso é antiquíssimo. Alguns cientistas encontraram o uso de simpatias na antiga Mesopotâmia.
A ação não racional (mágica, não lógica) baseia-se na intuição que analogias podem produzir efeitos favoráveis. E isso já era praticado na alquimia medieval. Paracelsus (1493-1541) foi um médico e filósofo suíço que julgava importante a "antiga arte de fazer uma simpatia com a doença" e, para isso, elaborou um sistema lógico a respeito. Ele disse: "Os semelhantes curam-se com semelhantes".

Na história da medicina no Brasil: Em seu “Erário Mineral” (1735), o cirurgião Luís Gomes Ferreyra, ao ensinar o uso de remédios da Terra e do Reino, defende claramente o uso de pós de simpatia e da pedra cordial encontrada no bucho de alguns veados.[3]

Em "The golden Bough" (2007), o antropólogo inglês James G. Frazer escreve sobre a ‘magia simpática’: "Quando analizamos os princípios básicos da magia, podemos resumi-los em dois pontos essenciais: (1) o semelhante produz o semelhante, ou seja, a consequência se parece com a causa; e, (2) coisas que uma vez tiveram contato entre si, continuam se influenciando depois da quebra do contato físico."[4]             

Ainda hoje, várias simpatias, em uso entre nós, explicam-se por analogias; p.ex.: a uma criança que gagueja dão de beber água na campainha do altar que se comunica bem; em São Paulo e Minas Gerais, quando um menino caminha com dificuldade, esfregam-lhe nas pernas a bolinha de ovinhos amarelinhos encontrada na teia das aranhas ou lavam-lhe as pernas com o cozimento de um pezinho de veado, pois aranhas e veados têm pernas ligeiras. Depois de plantar uma semente de melancia, alguém deve sentar-se um pouco na cova ‘para dar frutas grandes’; analogia fácil de compreender. Para escapar de inimigos e assaltos, é bom carregar um pedacinho de couro do lobo-guará, animal muito esperto e desconfiado.

Outras tantas simpatias são praticadas sem analogias aparentes. Tudo isso é perfeitamento comparável com o uso de amuletos e talismãs. O cidadão que só acredita naquilo que tem explicação, manda estas coisas para o reino da superstição. Mas, ... não ter explicação é próprio da simpatia. O funcionar das simpatias supõe algum relacionamento íntimo entre homens, animais, plantas, planetas. A intuição desta profunda união não leva em conta as leis de causa-fim.

Assim, p.ex., para secar o leite materno, a mulher põe no pescoço um cordão de talos de mamona. É bom contra mau-olhado, um raminho de arruda atrás da orelha; uma beleza. A mãe diz: Menino, joga seu dente de leite em cima do telhado e volte para cá sem olhar para trás; outro dente vai nascer. Em certos casos, a pessoa não pode voltar ao lugar onde a simpatia foi feita. Têm simpatias que a pessoa beneficiada não pode saber. Certas simpatias exigem que os objetos empregados (panela, faca) sejam ‘virgens’. Também a bolsinha dos patuás é feita de pano nunca usado. Além disso, observamos que algumas simpatias expulsam o mal: tirar cobras do pasto e lagartas na horta, mandar a visita embora, transferir a doença para uma árvore; e outras correspondem a desejos: pescar um peixe bom, arrumar dinheiro, conseguir um casamento feliz, galinha botar ovo. Em todo caso, é notável encontrar (1) a pratica racional, (2) a simpatia sem lógica e (3) o ritual religioso, executados simultânea- e conscientemente, pelo ser humano em diversas culturas.

E, para não dizer que não falei dos santos protetores, eis mais uma analogia: Enquanto a medicina científica e tecnicamente avançada continua de difícil acesso para muitos, entre as alternativas encontra-se o curador que peleja com o sofrimento alheio que ele já conhece por experiência própria. O “curador ferido”, arquétipo estudado pelo psiquiatra Carlos Gustavo Jung (1975-1961), corresponde também a santos patronos como Santa Luzia que perdeu os olhos e agora protege os olhos do povo; São Lourenço que morreu queimado e cura queimaduras; São Sebastião morreu flechado e cura doenças contagiosas (a flecha simboliza a peste, na Idade Média). Há outros santos assim.

Na medicina popular, rezas, remédios e simpatias misturam-se tanto que não há como separá-las. A pedra bezoar, encontrada no estômago da vaca, é usada como remédio e como simpatia. Muitos afirmam que as simpatias são feitas com fé. É comum a simpatia feita em forma de cruz. Bentinhos e patuás, frequentemente contêm a oração escrita juntamente com alguma simpatia. A chave do sacrário cura sapinho e a medalha de São Dimas protege a casa contra assalto. ‘Medidas’, como a fita do Senhor do Bonfim ou a fita da medida do corpo de um doente, podem servir como simpatias.

Simpatias são usadas especialmente para resolver casos complicados como: soluço, verrugas, hemorroidas, bronquite e coqueluche; também para ajudar a criança com dificuldade de caminhar, para favorecer o parto difícil, expulsar a placenta, emagrecer, crescer cabelo, prevenir-se contra mau-olhado. Há simpatias para curar animais.

Conclusão: Tentar levar a sério o tripé sagrado da medicina popular de rezas, remédios e simpatias, é um desafio que nos obriga a pensar o mundo a partir do outro que talvez seja pobre, não saiba ler, mas certamente recebeu uma educação diferente, viveu a experiência religiosa através de costumes a nós desconhecidos.

Este povo tem fé em Deus, procura ser coerente no pensar e participar na sua comunidade portadora de cultura própria. Não podemos descartar logo tudo que não caiba nas nossas teorias. Provavelmente podemos sim aprender com eles e eles conosco. Esta busca de tentar compreender o outro não significa apelar para a ignorância. Eles e nós temos muito em comum. Vivemos na mesma era e na mesma nação. Somos criaturas e filhos do mesmo Deus.

Francisco van der Poel (Frei Chico) é autor do livro "Dicionário da Religiosidade Popular: Cultura e Religião no Brasil"




[1] SÃO PAULO, Fernando. Linguagem médica popular no Brasil. Rio de Janeiro: Barretto & Cia, 1936. v.1. p. 18.
[2] BARROS, Sousa de. Arte, folclore, subdesenvolvimento. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. nota 41. p. 115.
[3] FERREYRA, Luís Gomes. Erário Mineral. (Lisboa, 1735) Belo Horizonte: Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, 1997 (ed. fac-similada) p.96.
[4] FRAZER, James George. De gouden tak: over mythen, magie e religie. Amsterdam: Olympus, 2007. p.31.

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